Por Alexandre Coimbra Amaral

Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.

Roland Barthes, “Fragmentos de um discurso amoroso”

As culturas latinas tendem a colocar o ciúme como uma característica que marca as grandes relações amorosas. Como se fosse um selo que expressasse a magnitude e a reverberação do amor entre duas pessoas.Esta é uma ideia perigosa, porque retira do amor o seu componente libertário. Porque deixa do lado de fora da relação o prazer de um amor que contribua para a autonomia e para a realização das pessoas. Ainda confundimos o amor com a posse.

A paixão com a longevidade de uma relação e o desejo de viver um projeto de vida a dois com a obrigação de ser tudo para um outro. E esvaziar-se das suas próprias necessidades. O ciúme é, assim, um elemento incômodo mas contraditório: ao mesmo tempo em que ele molesta, é fundamento de um nível de intensidade de energia em um casal que afasta aquela história vivida do maior dos fantasmas, a indiferença.

Há muito o que possa ser dito sobre o ciúme, escolho aqui dez características que marcam a vivência das relações conjugais marcadas indelevelmente por ele. Não são verdades, não são regras, não são afirmações absolutas; são idéias que podem servir para uma boa conversa sobre este assunto entre casais ou profissionais que os atendem.

1 – O ciúme é uma forma de se lidar com o medo, real ou imaginário, da perda do amor.

Perder é parte tão intrínseca da vida humana quanto o seu grande oposto, adquirir habilidades, hábitos, coisas, experiências ou pessoas. No entanto, é provavelmente a nossa principal dificuldade existencial, o nosso dever de casa mais postergado, o enfrentamento mais doloroso. Perder é um dos gatilhos para o medo, e este medo pode ser a origem de uma relação baseada no ciúme. Não é necessário que este medo seja real; a maior parte dos medos é irracional e irreal, e nem por isso nos deixam em paz. Confrontar o ciumento com o ilógico da sua sensação não lhe traz conforto nem apazigua os pensamentos que lhe possuem e se transformam no seu senhor quase absoluto.

2 – O ciúme pode ser visto como virtude ou vício.

As culturas podem ver o ciúme de várias maneiras, como uma avalanche emocional que precisa de contenção. Ou como uma senhora que disciplina a monogamia, que faz o papel de um guarda-costas da exclusividade do amor romântico. Perceber o ciúme como uma virtude das relações mais intensas e vívidas pode cegar o casal e seu entorno para as circunstâncias em que a violência pode se estabelecer como padrão relacional.

Vê-lo como um vício é parte de um processo que pode patologizar apenas a pessoa dita como ciumenta no casal. O que é apenas uma parte da questão. O outro parceiro coparticipa do circuito ciumento. E precisa também se corresponder na dinâmica de controle. Porque ser controlado também pode ser sentido como uma experiência de cuidado.

3 – Há pessoas ciumentas, mas também há relações ciumentas.

O ciúme não é somente uma experiência individual, ela faz parte de um complexo circuito relacional. As relações de casal são contextos de vida que fazem com que os adultos se vejam de forma inédita, em seu melhor e em seu pior. O encontro entre duas pessoas constrói um funcionamento de encaixe que pode ser tão complementar. Onde um e outro se alimentam daquele padrão, se sustentam e passam a se identificar com aquele determinado personagem. Assim, podemos ver o ciúme como o atributo de uma pessoa. Mas também como uma construção que se emoldura numa teia que une os dois e mais um tanto de pessoas, que existam ou não no mundo daquela relação amorosa.

4 – O ciúme é filho e pai da ansiedade.

A impossibilidade de controlar as emoções de qualquer outro faz do amor uma estrada que se percorre com alguma ansiedade. Afinal de contas, no afã de querer prever ou tornar previsível uma história. A ansiedade vem com seus impulsos irrefreáveis e faz do momento mais tranquilo do amor uma cena de tons berrantes. Quando se percebe os efeitos destrutivos do ciúme. Ele também pode ser o produtor de mais e mais ansiedade, que aparece então como vontade de reparar algum ato ou palavra que tenha sido inadequado ou impertinente ao espaço do casal.

5 – O ciúme é uma das formas do ódio se manifestar ao lado do amor.

Como um dos absurdos com que convivemos em uma cultura ainda demasiadamente patriarcal. O ciúme é uma das formas socialmente validadas de se expressar o ódio e os comportamentos violentos nas relações de casal. Assim materializando no cotidiano as crenças mais adoecidas sobre desigualdades de gênero, abusos de poder e normalização de cenas humilhantes, amedrontadoras e vergonhosas.

6 – O ciúme é uma forma de pensamento obsessivo.

O ciumento acredita mais em seus pensamentos do que em qualquer traço de evidência que desmonte suas teorias conspiratórias. O ciúme é, assim, um solo fértil para a adubagem de fantasias, medos, paranóias e hipóteses mais ou menos alucinadas que vão ganhando o status de certezas inabaláveis.

7 – Sempre existe um terceiro na experiência ciumenta.

Geralmente tendemos a pensar no ciúme como a fantasia da figura de uma ou um amante. Mas esta é uma forma reducionista de ver a questão. O ciúme pode ser de um amigo, de um familiar, de um ex companheiro ou de uma ex companheira, ou até mesmo de um filho ou filha. A questão desconcertante, originária do ciúme, é perceber que um certo alguém é preferido. E tem um lugar especial no coração ou na memória de quem se pede toda a exclusividade dos afetos. O ciúme é o medo de ser coadjuvante na lista de prioridades afetivas do ser amado.

8 – Quem é alvo de ciúme sofre, mas pode se alimentar do ciúme do parceiro.

Nada é linear nesta vida, todas as nossas vivências estão carregadas de complexidade, sendo assim multifacéticas. Uma das faces ocultas da pessoa que sofre com alguém ciumento é ser tocado nos seus desejos mais inconfessáveis de ser importante, exclusivo, de causar tamanho alvoroço em alguém. O transtorno de um outro pode ser sentido como uma inflação no ego de causar descompasso no coração. O que pode ser visto como uma expressão de poder sobre alguém. O mercado dos amores é também um mercado de poderes. E há troféus a serem erguidos por quem recebe a desconfiança desmedida de um parceiro ou parceira.

9 – A relação do ciumento com seu alvo de ciúme é um círculo vicioso de perseguição e retraimento.

A relação ciumenta se inicia com a atitude de qualquer um dos dois. Mas geralmente começa com a inquisição e a escalada agressiva do ciumento. Esta forma de agir do ciumento leva ao retraimento ou atitude desafiadora da outra parte. O que termina por gerar mais sensação de insegurança e suspeitas no ciumento. É um binômio invasão-evasão: quando mais um invade com perguntas, mais o outro evade em reservas, silêncios ou ressentimentos. É um fenômeno sistêmico, em que ambos coparticipam das dinâmicas num arranjo que congela e encapsula ambos numa experiência de difícil resolução.

10 – O ciúme é a origem de muitos feminicídios.

A expressão “crime passional” é uma invenção do machismo, para minimizar a ação do homem e culpabilizar a vítima. Precisamos, portanto, extingui-la de nossos diálogos mais prosaicos, das notícias de jornais sensacionalistas e da forma de ver um desfecho hediondo de uma relação baseada na suposição da posse de um sobre o outro. Os feminicídios são a marca de que nossa cultura valida a violência contra a mulher, e ainda a transforma na razão da desrazão masculina. Todo crime dentro de uma relação amorosa em que a mulher é a vítima é um feminicídio.

O ciúme é, assim, o contrário da atitude de enfrentamento da vulnerabilidade e do risco de amar.

Quando amamos, não possuímos. Quando amamos, não temos a certeza de nenhuma eternidade do vínculo. Ele pode se extinguir pela separação ou pela morte. E este pavor nos assola de maneira tal, que uma das saídas pode ser o desenvolvimento do ciúme. Aprender a perder, como grande exercício de toda uma vida; aprender a perder a certezas, como o objetivo final. Para isto também nos apaixonamos, para isto também nos aventuramos no amor. Sabemos que todos são imprevisíveis, e mesmo os ciumentos vão perceber que não há posse. Não há como represar a autonomia do amor sobre si mesmo. Ele se faz e se desfaz, ele vai e vem, à revelia de nossos ódios, de nossos desejos de amar e de nossas ilusões de controle.

Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, Mestre em Psicologia pela PUC do Chile, terapeuta de casais e famílias. Foi professor universitário de cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia por mais de uma década, e hoje dedica-se a cursos livres, presenciais e online. Facilita cursos, workshops e retiros terapêuticos em todo o país, tanto para profissionais de saúde e educação, quanto para casais em fases importantes de transição nas famílias. Fundou o Instituto Aripe, plataforma de conteúdo digital sobre temas relacionados à experiência familiar e conjugal.

 

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