A Culpa é do Outro?

Quantas vezes você já se viu pensando que a sua crise do seu casamento é de responsabilidade do seu parceiro ou parceira?

Tenho certeza que, entre amigos ou amigas, você também já participou de conversas que traziam esta cena:

O outro é que é o culpado.

A função dos amigos que escutam as queixas costuma ser, inclusive, a de dar força para o jeito que a pessoa culpa o parceiro.

Falar sobre crise do casamento com amigos é um grande “joga pedra na Geni”…

Não estou dizendo, aqui, que a pessoa com quem você se casou não seja difícil. Nem tampouco que possa ter havido uma falha bem grave, como algum episódio violento, por exemplo.

 

Há questões que precisam ser pontuadas sim, em que cada um se responsabilize por sua parte na história da crise conjugal.

Acontece que fomos muito ensinados a um tipo de pensamento que nos leva sempre a culpar o outro.

Lembre-se aí das suas memórias sobre todos os tipos de crises de relacionamentos. Pode ser que seus pais disseram para você:

“desculpe, eu errei, mas você também…”

Essa expressão, tão presente na nossa história, nos ensinava que, nem nos momentos em que o outro errava, a responsabilidade deixava de ser nossa.

Nossos pais nos ensinaram que a culpa dos erros deles é do outro.

Nesse caso, o outro era cada uma e um de nós, crianças. A culpa pelo mau desempenho escolar é do professor que não teve a competência de ensinar bem; pela briga na escola é que ele me provocou;  a culpa do climão na mesa de jantar do Natal é que a pessoa disse uma coisa que não se podia dizer.

O outro, o outro, o outro.

Em todas as fases de nossa história, em qualquer tipo de relação (familiar, de amigos, amorosa), a culpa é do outro.

Chegamos ao casamento com esse hábito: o de culpabilizar o outro pelos momentos difíceis que vivemos.

Se aprendemos a fazer assim, é possível desaprender.

O desenvolvimento humano é eterno. Não existe isso de “estou velha ou velho demais para aprender”.

Eu lhe convido a pensar diferente, porque somos mesmo aprendizes em todos os relacionamentos da vida.

Reaprendamos a olhar para as crises do casamento!

E perceber a crise como um círculo, um circuito que se alimenta das interferências dos dois.

É assim que o pensamento sistêmico imagina as crises: tudo se explica em um círculo, em que causas e efeitos deixam de ter tanta importância, porque terminam virando simplesmente elementos que aumentam o conflito.

É importante falar do machismo dele, claro, mas eu fico como diante deste machismo?

Quais são minhas reações?
E como ele responde às minhas reações?

Veja que tudo se transforma em um círculo, que precisa ficar mais claro para o casal.

Que elementos você acha que estão presentes, vindos dos dois, na composição da crise do casamento?

Vá fazendo esse exercício! Coloque num papel os elementos que você e o outro acreditam que vêm construindo este peso incômodo no casamento.

Perceba que, diante de cada uma dessas palavras, o outro reage de uma determinada maneira, e esta reação provoca uma contra-reação em sequência. Veja como a coisa vai ficando complexa. Não há só uma causa.

O pensamento sistêmico, base da terapia de casal que eu conduzo há décadas como psicólogo, apoia os casais a entenderem a corresponsabilidade afetiva de cada um no aparecimento, no crescimento, na manutenção e na resolução das crises conjugais.

É isso. Eu continuo conversando com você, nos próximos vídeos desta série.

Até breve!

Por Alexandre Coimbra Amaral, Psicólogo, Mestre em Psicologia pela PUC do Chile Terapeuta de Casais, Famílias, Grupos e Comunidades.
Psicólogo do Programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo. Colunista da Revista Crescer (Editora Globo) e do Portal Lunetas (www.lunetas.com.br).