A Perda gestacional e os lutos não reconhecidos

Um relato em primeira pessoa  sobre a importância da empatia, dos laços de cuidado e dos rituais de despedida.
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O texto que escrevo hoje faz um entrelaçado entre três lugares de minha existência: o de profissional de psicologia e tanatologia, que alerta sobre a importância do apoio e do reconhecimento social para se viver um processo de luto; o de mulher, que reconhece o quão vulnerável estão os nossos corpos, que sofrem várias formas de violência e que aos poucos vamos aprendendo a nomear, para assim podermos nos defender;  e, por fim, falo do lugar de mãe, que conhece a intensidade com que somos capazes de amar um filho e de sofrer por uma perda, independentemente de há quantos dias, meses ou anos esse vínculo tenha se dado.

Eu vivi uma perda gestacional.

Foi a minha segunda gestação. E posso afirmar que doeu. Meu primogênito tinha 4 anos e eu lutava bravamente para organizar a minha vida de modo a viver uma gestação realmente planejada. Eu tinha uma série de frustrações sobre a gestação e o parto do meu primeiro filho — uma cesariana feita de forma precipitada e cheia de desconexão. Sonhava com um parto natural, quem sabe domiciliar, com a participação do irmãozinho. E então o positivo chega: alegria, anúncio feito à família, ao irmãozinho, expectativas várias dessa família que agora estava maior. Contava cada segundo para fazer o ultrassom e ouvir esse novo coração que batia dentro de mim.

“Sinto muito. O coraçãozinho do seu bebê não está mais batendo. Amanhã faremos a curetagem. Vamos acabar logo com esse sofrimento”.

Entrei no carro atordoada e chorei, chorei, chorei. Era um dia de chuva. E choveu forte dentro de mim. Culpa, frustração, tristeza, medo. E agora? Tenho que tirá-lo de dentro de mim amanhã? E seguir a  vida como se ele não tivesse existido?

Aborto retido é o nome dessa situação.

Nem meu corpo, nem eu entendíamos que a gestação estava encerrada. Continuava produzindo os hormônios da gravidez. Precisávamos de um tempo! Não era sobre encerrar esse sofrimento amanhã.

Fui encaminhada a outro médico e expressei meu desejo de ter tempo para me despedir dessa gestação e desse filho. Ele concordou. Decidiu me monitorar por meio de exames semanais e perguntou se eu estaria disponível para deixar o meu corpo fazer a “expulsão” naturalmente. Sim! Eu estava! Mas por que isso parecia tão estranho, tão mórbido para os olhos alheios? Banquei minha decisão. Recebi um atestado de 30 dias e pude viver meu luto ambíguo, seja pelo não reconhecimento social da minha dor ou, pior ainda, pelo julgamento e reprovação social.

Após alguns dias, numa manhã em que o meu marido ainda não tinha saído para o trabalho, as contrações começaram. Ficamos ali vivendo aquele pequeno parto do nosso pequeno “embrião” juntos. Entre abraços, choro, pedidos de desculpas e declarações de amor, fizemos a nossa despedida. Foram apenas 11 semanas e, independentemente do seu peso ou tamanho, lutei pelo direito de escolher como me despedir.

O luto por uma perda gestacional

O luto por uma perda gestacional é bem mais complexo do que o tempo que durou a gestação: envolve conhecer a complexidade das experiências anteriores de perdas da mulher, os motivos da perda que podem trazer muita culpa, bem como toda a construção de expectativas futuras em relação à chegada daquela criança.

Se for para fazer a diferença na vida dessa mulher, legitime a sua experiência, ofereça colo e não julgamentos ou soluções de saídas mágicas do sofrimento. Evite frases inocentemente cortantes como: “Já, já você engravida novamente!” ou “Ainda bem que você já tem outro filho”. “Melhor assim, né? Deveria ter algum problema e a natureza fez o que devia”. Não, não, não! Só diga: Eu entendo e acolho a sua dor e estou aqui para te ajudar”. Isso basta.

por Rachel Savir, psicóloga CRP 11/04348,  Rachel está no Instituto Aripe preparando no Curso de Teoria do Apego.

O curso “Teoria do Apego” foi desenhado para dar auxílio e instrumentalização a pessoas que se interessem pela especialização na Teoria do Apego e pela temática das relações interpessoais e vinculação humana.

O formato é acessível para qualquer pessoa, incluindo profissionais da área da Psicologia, que se interessem por esta temática. Em todos os nossos cursos, privilegiamos a comunicação aberta, com conceitos bem embasados teoricamente, sem renunciar à possibilidade de entendimento e diálogo.

O curso será ao vivo, em aulas online participativas, onde os alunos conversam com o professor a todo momento, esclarecendo dúvidas, trazendo histórias que ilustram conceitos, abrindo novas frentes de discussão, interpretação e entendimento.

Conheça mais sobre o curso da Teoria do Apego em: https://aripe.com.br/teoria-apego/

O Instituto ARIPE é uma plataforma de cursos online de aperfeiçoamento e aprofundamento profissional de psicologia, cursos complementares e educação continuada a distância para psicólogas (EAD), psicanalistas, terapeutas individuais, psicoterapeutas, psicopedagogas e interessados pelos assuntos.