A Traição e seus Significados

O tema desta postagem é um problema que infelizmente é vivido pela maioria dos casais que procuram algum tipo de ajuda terapêutica: a traição. Ela aparece como a decepção inimaginável, que corrói os afetos e faz o casal se sentir diante de um terremoto. Ainda que um dos dois seja o traidor e o outro o traído, ambos sentem o chão da vida a dois se abrir, e começar a partir dali a queda num fosso escuro e imprevisível. Nunca se sabe se uma traição será o fim de um relacionamento; há casais que realmente não suportam este evento, porque o significado moral da traição desfaz qualquer esperança no vínculo. Mas muitas outras histórias de traição são uma duríssima forma de reconstrução. Pode parecer estranho o que estou lhe dizendo, mas é parte da vida como ela é, e de como ela pode ser depois deste grande terremoto.

RECONSTRUINDO NOSSO CASAMENTO | Jornada Terapêutica para Casais com Alexandre Coimbra Amaral e Daniela Leal
INSCRIÇÕES ABERTAS: https://bit.ly/3erBG7K
*Para aqueles que estão em sofrimento por sucessivas crises no relacionamento conjugal e que buscam caminhos de reencontro.*

Mas… o que vem à sua mente quando você pensa em traição? Que sentimentos aparecem em você, ao pensar em você como vítima e no seu parceiro ou parceira como o traidor, ou traidora?

Perceba que o julgamento desta questão costuma passar pela moral: a tábua dos mandamentos da sua relação conjugal pode ter, na lei primordial, o acordo sobre uma relação monogâmica, em que nenhum dos dois está autorizado a manter qualquer tipo de relacionamento erótico com outro parceiro.

E sobre o tema da traição ainda temos a emoção social da vergonha, que faz a pessoa traída se sentir desmoralizada na frente de todos. Some-se, também, a esta questão, o medo que muitas pessoas têm de manifestar publicamente os dilemas pelos quais o seu relacionamento passa. Para qualquer uma e um de nós, é fácil compreender o tamanho da dor que a traição provoca nos relacionamentos conjugais.

Agora, sinta-se convidado a ampliar este conceito sobre traição.

Apesar dela ser  sim, toda esta dor e sofrimento que eu descrevi há pouco, no casal que a vive. Ela também pode ser muitas outras coisas: –  Já pensou em alguém que vive um relacionamento em que se sente intimidada, desrespeitada, rejeitada? Por exemplo… E que, por conta inclusive do que este relacionamento provoca nesta pessoa, ela não se sinta digna e com força suficiente para dizer “não quero mais” e partir para outra…

Pode acontecer que alguém novo apareça como uma pergunta sobre o direito de se descobrir num outro tipo de arranjo conjugal… e tudo isso no meio de uma relação cronicamente falida, mas fazendo parte também de uma vida resignada, anestesiada e considerada como “o que temos para hoje”.

Também podemos fazer a pergunta “De que outras formas a traição aconteceu neste casamento?”, que tanto pode assustar à pessoa traída, que não se imagina no lugar de precisar pensar sobre uma história mais longa de desencontros no casal. Muitos parceiros amorosos se colocam como emocionalmente infiéis durante anos, fazendo de suas vidas conjugais uma coleção de cenas de abandono; expectativas frustradas depois de falsas promessas reiterativas; priorizações absolutas do trabalho em detrimento da vida a dois; ausências no cuidado dos filhos, etc.

Por isso, uma traição abre uma grande coleção de perguntas, que demoram mesmo para serem respondidas.

Ou seja, um casal que queira trilhar essa rota de reencontro, sabe que vai ser um caminho de muito amadurecimento, embora com tintas carregadas de mágoa e amargura:

Nós tentamos nos alertar dos vazios em que nosso relacionamento estava caindo? Como eram estas conversas? Eram monólogos ou reais diálogos? Conseguimos chegar na verdade das nossas almas, considerando as dores que nos mobilizavam?

O mais difícil, para começar um tratamento numa terapia de casal numa relação conjugal pós-traição, é sair da dicotomia traidor-traído, que engessa os dois nestes papéis e faz com que a história do casal pareça se reduzir àquilo – e não é.

Há questões sérias a serem reparadas na perda da confiança, no entanto isto não se resume a perdoar, por exemplo.

A traição é uma grande pergunta sobre a forma como o casamento estava estruturado até ali.

Condenar o traidor moralmente não termina com nenhum dilema e tampouco resolve a vida da pessoa que foi traída. Se quisermos fazer um balanço genuíno, teremos que considerar todos os tipos de traições, todos os momentos em que um e outro não corresponderam ao que o parceiro esperava, todas as cenas em que sentimos o desânimo no encontro, todas as vezes em que os elefantes brancos passaram a habitar a sala de estar, e nós não tivemos a iniciativa de conversar abertamente sobre eles.

Tudo isso faz parte de qualquer história de traição; e envolve a ambos num diálogo certamente tenso e desconcertante. No entanto, quem o enfrenta, sem nenhuma dúvida, sai mais maduro para fazer parte de qualquer tipo de história de amor.

Confira toda os outros vídeos e textos já publicados da Série Reconstruindo o nosso Casamento: AQUI!,

por Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo, Mestre em Psicologia pela PUC do Chile Terapeuta de Casais, Famílias, Grupos e Comunidades. Psicólogo do Programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo. Colunista da Revista Crescer (Editora Globo) e do Portal Lunetas (www.lunetas.com.br).