Queridas mães, estou escrevendo a vocês hoje porque não posso mais conter a dor nas minhas entranhas e o fogo no meu coração em relação a uma injustiça cujo peso vocês e eu estamos suportando.

Apesar desta injustiça afetar a todos – homens, mulheres e crianças – nós, mães, não só a sentimos mais intensamente, como também nos sentimos desproporcionalmente responsáveis por aliviar seus sintomas penetrantes e profundamente prejudiciais, que aumentam imensamente o peso do mundo que já estamos condicionadas a carregar.

A injustiça é esta:

É preciso uma aldeia, mas elas não existem. 

Por aldeia eu não quero dizer simplesmente “um grupo de casas e edifícios associados, maior do que um povoado e menor do que uma cidade, situada em uma área rural”. Estou me referindo ao modo de vida inerente a comunidades multigeracionais relativamente pequenas e relativamente contidas em si mesmas. Comunidades nas quais os indivíduos conhecem bem uns aos outros, compartilham as alegrias, as dores e as mágoas da vida cotidiana, cuidam uns dos outros em tempos de necessidade, preocupam-se com as crianças em constante movimento e com os idosos cada vez mais dependentes e se sentem nutridos por sua contribuição claramente essencial ao grupo.

Estou falando sobre o ambiente mais natural no qual as crianças podem crescer.

Estou falando sobre um modo de vida para o qual fomos biologicamente constituídos, mas que é quase impossível de ser encontrado em nações desenvolvidas.

Estou falando sobre a necessidade primária não atendida que leva à frustração que a maioria das mães sem-aldeia estão sentindo.

Ainda que a expressão “é preciso uma aldeia para criar uma criança” tenha se tornado um clichê, o impacto das nossas realidades sem-vila não é nada insignificante. Ele está causando incontáveis estragos em nossa qualidade de vida.

Na ausência de uma aldeia:

– mães e pais sofrem uma enorme pressão, enquanto tentamos suprir tudo o que comunidades inteiras costumam prover.

– nossas prioridades se tornam distorcidas e pouco claras, enquanto tentamos atender a várias necessidades conflitantes ao mesmo tempo.

– nos sentimos menos seguras e mais ansiosas sem as fronteiras conhecidas, as expectativas e o apoio de um grupo bem conhecido de pessoas com as quais crescer.

– somos forçadas a criar nossas tribos durante épocas de nossas vidas nas quais temos menos tempo e energia para fazê-lo.

– tendemos a nos apegar a nossos ideais e paradigmas de parentalidade, mesmo quando, ao fazer isto, nos dividimos, na tentativa de nos sentirmos mais seguras e menos sobrecarregadas por tantas formas e opções

– a forma natural de ser de nossos filhos é comprometida, já que a maior parte das vizinhanças e comunidades não contêm mais bandos de crianças inquietas com as quais eles podem explorar, criar e nutrir sua curiosidade.

– nós corremos feito loucas tentando prover interação, estímulo e oportunidades de aprendizado que, antes, estavam à distância de uma caminhada.

– esquecemos o que é “normal”, o que nos faz sentir que não estamos fazendo o suficiente ou o “certo”.

– as chances de depressão e a ansiedade aumentam muito, particularmente durante épocas das nossas vidas nas quais, instintivamente, sabemos que precisamos de mais apoio do que nunca, mas não temos energia para busca-lo.

– nos sentimos desempoderadas por tantas responsabilidades e pressões aos quais tentamos tão empenhadamente corresponder.

– gastamos dinheiro que não temos em coisas das quais não precisamos, numa tentativa de preencher os vazios que sentimos.

– confiamos pesadamente nas mídias sociais para ganharmos um sentido de conexão, o que, com frequência, nos leva a nos sentirmos ainda mais isoladas e inadequadas.

– nos sentimos sós e invisíveis, mesmo quando cercadas de pessoas.

– nossas parcerias são penalizadas pelas necessidades que costumavam ser divididas pela comunidade, e nossas expectativas em relação às pessoas que amamos aumentam a níveis irreais.

– nos sentimos frequentemente julgadas e mal-compreendidas.

– nos sentimos culpadas por quase tudo: por não termos tempo ou vontade de sermos as principais companheiras de brincadeiras de nossos filhos, por não trabalharmos o suficiente, por trabalharmos demais, por deixá-los assistir muita TV para podermos dar conta do milhão de responsabilidades que atribuímos a nós mesmas, etc.

– alegria, leveza e diversão parecem difíceis de serem acessadas.

– nós achamos que deveríamos ser independentes e nos sentimos envergonhadas por precisarmos dos outros.

– tomamos decisões que não refletem nossos valores, mas que apontam para nossas necessidades não atendidas mais profundas.

Talvez, e mais tragicamente, a ausência de uma aldeia está distorcendo o senso de identidade de muitas mães. Está fazendo com que nós achemos que devemos culpar a nossa inadequação por nosso sofrimento, o que perpetua a sensação de que nós precisamos fazer mais para nos livrarmos dele.

É uma armadilha. Um ciclo de auto-perpetuação. Uma realidade distorcida que deriva sua força dos padrões mentais opressivos que ainda se mantém, apesar das nossas liberdades.

Aqui está um novo padrão mental para experimentarmos:

Você e eu não somos o problema, de modo algum. NÓS ESTAMOS FAZENDO O SUFICIENTE. Podemos nos sentir inadequadas, mas isto é porque estamos na linha de frente do problema, o que significa que somos as mais atingidas por ele. Nós absorvemos o impacto de uma estrutura social falida e opressora para que nossos filhos não precisem fazê-lo.

Isto faz de nós heroínas, não pessoas falhas.

Não, nós não somos oprimidas da maneira como costumávamos ser (ao menos não das mesmas formas pelas quais mulheres ao redor do mundo ainda são), mas não nos enganemos em relação a isso.

Na ausência de uma aldeia, nós estamos em desvantagem como jamais estivemos. Podemos ter mais liberdade do que nossas antepassadas, mas nossa carga permanece desproporcional e opressivamente pesada.

Desde o início dos tempos (e até muito recentemente), as mães assumiam as cargas da vida juntas. Nós esfregávamos nossas roupas nos riachos enquanto riamos dos bebês espirrando água e enlutávamos pelas últimas perdas, seja de amores, seja de vidas. Nós tecíamos, costurávamos, fiávamos, tingíamos e remendávamos enquanto trocávamos histórias e cuidávamos das nossas avós idosas. Nós curávamos as feridas umas das outras (tanto físicas quanto emocionais), confiávamos umas nas outras quando os tempos ficavam duros e procurávamos conselhos com as idosas sábias, experientes e queridas de nossas comunidades.

A vida em aldeias criava um senso de segurança, inclusão, propósito, aceitação e importância. Estes elementos essenciais para o desenvolvimento faziam parte.

E agora? Estamos sendo forçadas a criar tudo isto para nós em uma sociedade que se reestruturou física e energeticamente em torno de um novo conjunto de prioridades. É um modelo de lucro antes de pessoas, que ameaça o bem-estar de quase tudo o que nós, mães, somos programadas a proteger.  

Apesar de ser uma otimista por natureza, este dilema me desencorajou muitas vezes ao longo dos anos. Como pode uma nação inteira de mães mudar uma história tão disseminada, estando individual e coletivamente tão enfraquecida pela falta da coisa mesma da qual nós tão desesperadamente precisamos?

Mudanças culturais grandes em priorização, estrutura e poder estão claramente em marcha (e eu acredito que elas estão acontecendo, ainda que caoticamente). Enquanto isso, cada uma de nós tem uma escolha a fazer:

Podemos comprar as coisas como estão e fazer as pazes com elas ou exercitar as liberdades que nossas antepassadas e antepassados conquistaram para nós e nos comprometermos a fazer nossa parte única e essencial na criação de mudanças, começando dentro de nós e estendendo esta mudança para fora.

Você e eu talvez não experimentemos como é criar um filho em uma aldeia, mas tudo bem. Não tem a ver com a nossa geração. O papel desta geração é acordar para o que realmente somos e o que realmente queremos, e retraçar o rumo da sociedade de acordo com isto.

Nosso papel na recriação de aldeias na nossa cultura começa com sermos total, corajosamente e sem desculpas nós mesmas. Aqui estão alguns passos tangíveis que você pode tomar quando estiver pronta:

  1. Ter clareza sobre uma coisa: o fato de você estar lutando não é um reflexo de sua inadequação, mas das circunstâncias culturais artificiais nas quais você está vivendo.

  2. Honre e assuma suas necessidades. A maioria das mães está andando por aí com várias necessidades seriamente desatendidas, enquanto se focam exclusivamente nas necessidades dos outros. É precisamente isto que nos impede de ganhar força e melhorar nossas circunstâncias, tanto individual quanto coletivamente.

  3. Pratique a vulnerabilidade. Conexão rica, segura e autêntica é essencial para nos desenvolvermos. Cultivar esta qualidade de conexão requer coragem e um desejo de sair de sua zona de conforto. O que você mais quer existe lá, do outro lado daquela conversa inicial desajeitada ou daquela apresentação vergonhosa.

  4. Assuma suas forças. O que faz com que você se sinta forte e totalmente viva? O que acende e energiza você, apenas ao pensar? Quem você seria para sua vila, se você tivesse uma? Entrar em contato com suas forças e engajar com elas é uma das melhores maneiras de atrair o tipo de pessoas que você quer em sua vida, de abençoar e inspirar os outros e de construir um senso de comunidade que preencha você, ao invés de drená-la.

  5. Torne-se parte integral de algo. Seja um grupo de tricô, de dança, uma igreja, um clube de caiaque ou um coletivo de homeschooling, comprometa-se com a criação de uma comunidade em torno de uma área de sua vida que a enriqueça ou que atenda a uma necessidade. Use as conexões que você cultivar dentro desta comunidade para praticar mostrar-se corajosa e autenticamente, e pedir por aquilo que você precisa, seja apoio, recursos ou encorajamento.

  6. Faça sua parte, e SOMENTE sua parte. Ainda que seja tentador encher nossas vidas até a borda com compromissos que fazem a diferença, fazer isto só nos despotencializa.

  7. Aprenda sobre auto-amor e auto-compaixão. Em uma cultura na qual “nunca é o suficiente” é essencial que nós criemos relações saudáveis conosco mesmas, para que sejamos capazes de evitar as muitas mensagens que nos chegam sobre o que deveríamos ser e o que nos faz dignas de alegria e amor. De fato, vejo o auto-amor em ação como um dos maiores presentes que a nossa geração de mães pode oferecer às mães de amanhã.

  8. Fale a verdade. Mesmo se ela a deixar apavorada. Mesmo se ela tornar você a pessoa mais corajosa na sala.

  9. Imagine uma nova forma. Onde chegamos não se parece em nada com de onde partimos. Criar o tipo de futuro que queremos requer imaginar este futuro e acreditar que uma nova forma é possível. Seja específica e pense grande. O que você quer?

Eu experimentei a vida numa aldeia:

– durante a faculdade, quando minha tribo de idealistas e sonhadores estava toda ao alcance de uma caminhada e nós ainda não havíamos assumido os papéis sociais “adultos” que nos disseram que eram os mais importantes.

– na época em que meus primos adultos moraram conosco por vários meses. Eu nunca gostei tanto da maternidade quanto naqueles dias, quando eu sabia que as necessidades das crianças, da casa e dos indivíduos estavam sendo alegremente compartilhadas entre almas amorosas e ávidas por contribuir.

– em retiros com outras mulheres, quando cada uma de nós era relembrada de quão semelhantes são nossas lutas, e quão desesperadas estamos por apoio consistente, interação diária, cura, leveza e tranquilidade.

– em festivais ao ar livre, quando a vila é recriada, mesmo que apenas por um fim de semana num acampamento, e todos vivem de um modo comunal, num ritmo cooperativo e um modo mais leve de ser.

– durante o tempo que passei com as mães maias, na área rural e empobrecida do México. Lá eu testemunhei, em primeira mão, as bênçãos tornadas possíveis pela presença de uma tribo, ainda que desprivilegiada.

Minha alma se alimentou profundamente durante estes períodos. Todas as vezes eu pude provar o que está nós faltando. Me fortaleci e me tornei esperançosa novamente. Esta é a energia de que precisamos para criar a mudança. Isto é o que o poder dominante não quer que sintamos.

Eu não tenho nenhuma ideia do que o futuro nos reserva, mas eu sei que:

Nós deveríamos estar chorando, celebrando, caindo e nos levantando juntas.

Nós deveríamos ter avós e tias e vizinhas e primas compartilhando momentos cotidianos, nos guiando e nos ajudando a ver o sagrado na insanidade.

Nós deveríamos ser nutridas durante meses no puerpério, cuidadas quando doentes, abraçadas quando lamentamos e enlutamos e apoiadas durante transições desafiadoras.

E nossos filhos deveriam ser embalados e crescer dentro das estruturas sociais que NÓS achamos melhores para eles.

Encontre-se, e então encontre sua turma. Ou faça o contrário. Apenas não se acomode. Não se acomode nunca a um modo de vida criado por quem não honra nossa alma e ama nossos bebês.

“Outro mundo não só é possível, como está a caminho. Num dia quieto, eu posso ouvi-la respirando” (Arundhati Roy)

Por Beth Berry

Texto original em inglês: http://www.filmsforaction.org/articles/in-the-absence-of-the-village-mothers-struggle-most/

Imagem: A ciranda de Olinda – Gilvan

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Dance com seu Bebê em Casa – Dance Mãe e Bebê com Ana Zanesco

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