As Famílias Ajudam ou Atrapalham nas Crises?

Você acha que só se casa com uma pessoa? Ou é daquela opinião que a gente se casa com a família inteira? Há possibilidades de encontro e desencontro? O que se estabelece num contrato do relacionamento, que diz respeito à convivência com as famílias de origem de cada um?

O que é mesmo família? Eu proponho que coloquemos sempre esta palavra sendo sentida no plural: FAMÍLIAS.

São vários arranjos, com o direito de escolherem a melhor forma de existirem, sendo a todo momento transformadas pelas forças de um ou de vários de seus membros.

Toda história individual dentro da família tem o poder de mudar a sua forma de funcionamento. Por exemplo, um casamento que traga alguma novidade na forma de se levar a vida pode levar a família a um processo que pode começar com resistência. Pode ser que o “intruso” ou “intrusa”, o agregado ou agregada, a nora ou genro, cunhado ou cunhada, apareça como alguém que interfere na cultura que está instalada há décadas e gerações, e por isso precise ser neutralizado.

As famílias, quando se sentem ameaçadas em seu funcionamento, podem até chegar a “cancelar” alguém indesejado. Este movimento é duríssimo, pode colocar a pessoa em conflito de lealdade entre seguir os passos do parceiro ou parceira, ou render-se às pressões da família.

Mas família também pode ser parceira, pode ser apoio, pode ser rede. Família pode ser afeto, e é bom que construamos conversas que levem mesmo a isso, todos os dias. A função da família é ser afeto primordial, fazer com que as pessoas tenham a sensação de estarem num lugar seguro, em que podem ser elas mesmas…

Nem sempre é assim. Na prática, a teoria pode ser muito diferente. Mas eu não posso deixar de colocar aqui as características das famílias que dão, e muito, certo. Estas pessoas são sortudas? São uma exceção à regra?

O que é necessário ser feito para se conquistar autonomia e pertencimento nas famílias dos parceiros afetivos?

Em primeiro lugar, pertencer. Chegar junto, fazer parte. Entender os rituais significativos. Perceber-se como um visitante, desde o primeiro encontro, alguém que está chegando aos poucos naquele novo país. Cada cultura familiar merece ser vista como um novo país que você visita, com aquela curiosidade boa dos turistas, com o respeito de primeiro sentir e entender o que é importante para aquelas pessoas, e quem sabe aprender com a diferença, celebrar a existência do que é possível ser construído junto…

O Laços em Construção

Aos poucos os laços vão se construindo. Há famílias que sempre colocarão os de fora naquela pasta “outros”. Há famílias que quererão que todos se sintam da família. E haverá cônjuges que quererão ficar só como visitantes esporádicos. O direito de pertencer de uma forma ou de outra está posto para todos. O arranjo entre estes desejos é que precisa ser alinhado com muita, muita paciência por todos.

Mas na hora da crise do casamento, sobretudo estas crises mais duradouras, que vão se prolongando inclusive sob a testemunha da família, o que pode acontecer?

Por parte de um ou do outro parceiro, da pessoa da família ou da agregada, pode acontecer o que a gente chama em Terapia Familiar de TRIANGULAÇÃO. Quando você chama uma pessoa de fora para participar de um debate sobre a relação.

Sabe qual o problema disso?

É que esta pessoa não tem o poder de decidir nada, às vezes fica até difícil para ela opinar. E ela não costuma ter um olhar para o relacionamento, mas para uma pessoa, ou outra.

Este olhar para a relação é algo que se constrói geralmente quando não se tem tanta parcialidade assim. Por isso vários conflitos de casal podem piorar com as triangulações: os palpites começam a acontecer, as mágoas deixam de ser parte somente da relação do casal e passam a fazer parte das relações familiares como um todo. O caldo vai entornando cada vez mais.

Vale rever como você fala do seu relacionamento com os outros.

Perceber se você está construindo um olhar mais humano ou estereotipado sobre seu cônjuge, quando conversa com alguém da sua família ou da sua rede de amigos. Pode ser que isto contribua para você se sentir mais solitária ou solitário, porque no fundo você quer que a relação dê certo. Ou você quer apoio para se separar, se já sentiu que não dá mais, e a família ou os amigos continuam fazendo pressão para você relevar os erros do parceiro e tentar mais uma vez…

O espaço de privacidade pode ser importante para passar por uma crise conjugal. A privacidade faz encontrar o silêncio do tempo da elaboração. Em um espaço protegido, por exemplo num espaço de conversa com um psicólogo, os temas mais espinhentos podem ser tratados aos poucos, sem que você corra o risco de um olhar que te rotule, rotule seu parceiro e o seu relacionamento de anos.

Continue nos acompanhando nas próximas reflexões sobre crises e reconstruções de casamentos.

Por Alexandre Coimbra Amaral, Psicólogo, Mestre em Psicologia pela PUC do Chile Terapeuta de Casais, Famílias, Grupos e Comunidades.
Psicólogo do Programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo. Colunista da Revista Crescer (Editora Globo) e do Portal Lunetas (www.lunetas.com.br).