Uma questão que tem trazido muitas inseguranças, dúvidas e incertezas aos pais de crianças de 0 a 3 anos: A exposição da criança pequena às telas e aos eletrônicos.

Devemos expor? Não devemos expor? Por quê? Quais são as consequências?

Se pensarmos que nos primeiros três anos de vida a criança vai aprender a andar, a falar e a pensar, podemos começar a perceber, juntos, de que estímulos ela precisa para esse aprendizado.

No primeiro ano a criança vai adquirir a postura ereta e vai caminhar pelos próprios pés. A tela e o eletrônico vão ajudá-la nesse processo? Não! Ela precisa do vínculo com o adulto, com o cuidador, com a mãe, com o pai… Com a pessoa em carne e osso, presente diante dela, se vinculando com ela, olhos nos olhos. Ela precisa escutar a voz que parte do corpo, não parte de um eletrônico. Uma voz que é viva, que é corpo. Assim já estamos, também, criando bases e estruturas para o aprendizado da linguagem.

A criança precisa desenvolver a motricidade, precisa se movimentar livremente, precisa brincar, conhecer e explorar o mundo de verdade. Ela precisa tocar! É um período em que ela vai desenvolver o tato, o movimento, o equilíbrio… E uma criança parada, sentada em uma cadeirinha, diante de uma televisão, tablet ou celular, está desenvolvendo o tato? Desenvolve o equilíbrio? Desenvolve movimento? Cria vínculo? Não.

Esses são alicerces para todo aprendizado, tanto cognitivo, quanto toda a base de estrutura emocional e psicológica que uma criança precisa para ser uma pessoa saudável e feliz ao longo de toda a vida.

Temos observado muitas crianças com atraso na linguagem, no segundo ano de vida. Porque as bases da motricidade é que vão garantir um bom desenvolvimento da linguagem. Motricidade e vínculo! Então, quando uma criança fica demasiadamente exposta às telas, quando ela não vê uma pessoa falando com ela, isso não é real. Por mais que os joguinhos se digam educativos, não é desse estímulo que ela precisa nesse período.

Ela precisa perceber o ritmo, a musicalidade, a temperatura, o som, como esse som toca na pele dela. É muito diferente um som que parte de um corpo para outro corpo, de um som que parte de uma tela ou de um eletrônico para o nosso corpo.

Se observarmos, vamos perceber e vamos sentir. Experimente escutar uma música que parte de um eletrônico e escutar uma música ao vivo. É diferente, não é?
É muito diferente você ter a experiência de ir ao teatro da experiência de assistir um filme em uma tela. São experiências diferentes. E qual experiência é mais significativa no começo da vida? A experiência ao vivo!

Portanto, seria muito importante que a gente cantasse para e com a criança, que a gente se vinculasse com ela, que a gente buscasse a relação da criança com o mundo e não a relação dela com a tela.

Muitas pesquisas ao redor de todo mundo vêm comprovando que o atraso da linguagem tem sido recorrente por conta do uso e do estímulo excessivo de aparelhos eletrônicos e telas.

Inclusive, muitos países da Europa estão pensando sobre a possibilidade de banir os eletrônicos e as telas nas escolas de educação infantil até 5 anos. Porque o atraso na linguagem também tem impacto sobre a alfabetização. Isso é uma bola de neve que vai crescendo ao longo do tempo. Porque, se eu tenho dificuldade para me comunicar através da minha língua mãe, eu também tenho dificuldade de me relacionar com o mundo, porque eu me relacionei com telas.

Se eu estou no começo da minha vida, comendo diante de uma tela de celular, assistindo um desenho e eu nem sequer percebo que estou comendo, é automático: eu não sinto gosto, não sinto a textura e não percebo a quantidade de alimento que estou comendo. Já podemos, então, imaginar e perceber o impacto que isso vai ter ao longo da vida e da relação desse adulto com a alimentação.

Agora, a grande dificuldade que nós encontramos, enquanto pais e mães, é que nós hoje precisamos dos eletrônicos para trabalhar e para nos relacionar também com o mundo. Mas nós somos adultos! A nossa estrutura cerebral, o nosso pensar, já está elaborado e estruturado. Já conseguimos distinguir entre ficção e realidade, a criança ainda não.

Se a criança vai desenvolver o pensar no terceiro ano de vida, isso significa que toda essa exposição a excessos de mídia no começo da vida vai trazendo confusão nessa aquisição do pensar. A confusão entre a realidade e a ficção. E é um estímulo neurossensorial numa fase em que a criança precisa de estímulos motores. A estrutura neurossensorial dela não está preparada para assimilar esse excesso de informação! Depois nós teremos crianças e adolescentes hiperativos, com déficit de atenção, com depressão, porque têm dificuldade de se relacionar, de se vincular com o outro e com o mundo.

A nossa dificuldade, então, enquanto pais e mães, é: como nos relacionamos com os eletrônicos?

Quanto tempo por dia ficamos diante de uma tela? Que exemplo estou sendo para os meus filhos? É importante lembrar que a criança aprende por imitação!

A minha presença, na relação com a criança, diante da tela, também é nociva! Porque eu estou trazendo uma ideia confusa pra ela. Eu estou aqui, mas não estou aqui. Parece que estou presente, mas não estou presente. Um adulto que não está efetivamente presente, não consegue se vincular com a criança. E essa falta de vínculo vai trazer complicações para a vida dela.

Precisamos, então, rever também as nossas atitudes no nosso cotidiano. O que não quer dizer que você vai ter que banir os eletrônicos e as telas da sua vida. Mas é preciso organizar um ritmo. Criança precisa de ritmo, nós também precisamos de ritmo. A vida é feita de dia, noite, primavera, verão, outono, inverno… Tudo que é vivo no planeta Terra, tem um ritmo.

É importante construir esse ritmo com a criança.

Em algum momento vou precisar atender uma ligação, vou precisar responder alguma questão de trabalho. Sendo assim, eu me comunico com ela: “agora a mamãe precisa responder, chegou uma questão urgente, espera um pouquinho que eu já retorno”. Vou, respondo, não me disperso indo para as redes sociais ou respondendo outras questões, porque o tempo que eu tenho com a minha filha é muito precioso. Nós precisamos trabalhar e ficamos tantas horas por dia longe deles… Então que esse tempo que eu estou com ela ou com ele seja um tempo de presença verdadeira. Depois que eles dormirem, aí eu vou acessar outras questões que são menos urgentes, não?

Eles precisam entender também que eu sou adulta e que eu, em alguns momentos, vou precisar usar os eletrônicos. Então eu comunico e explico isso para a criança. Porque fica confuso quando eu estou o tempo todo aqui e ali, com a criança e no celular, no real e no virtual, simultaneamente. Não é uma presença efetiva, incorporada, aqui e agora. A criança está chegando nesse mundo aqui, agora, ela precisa aprender que o mundo é bom, que o mundo é belo e que o mundo é verdadeiro. Para isso, eu preciso ser uma pessoa que tenha essas qualidades na relação com ela.

Esperamos poder ter contribuí­do um pouco sobre essa questão das relações das crianças pequenas com as mídias e as telas. Convidamos a acompanhar os conteúdos sobre a primeira infância que disponibilizamos em nossas redes sociais e no site do Instituto Aripe.

por Mariene Perobelli é mãe, professora, trabalha com formação de professores e pesquisa o desenvolvimento da criança.

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