Por Fernanda Aranda

Dezesseis anos, véspera de feriado prolongado. Atravesso a rua com a cabeça na lua. Distante do farol de pedestre, em frente de casa. Três segundos depois, sem avistar a moto, puf, vou com a cabeça no chão.

Conduzo muito bem o pós-atropelamento. Avalio e Não me feri com gravidade. O motoqueiro, checo, passa bem. Meu irmão mais novo está em casa, peço para o vizinho cuidar dele. Telefono aos meus pais, ambos trabalhando, com o cuidado de não assustá-los. Peço carona a um conhecido, escolho o pronto socorro mais próximo. Passo pela triagem inteira. Só um gesso no pé.

Da maca, depois de atendida, avisto a minha mãe chegando esbaforida no corredor.

Desabo.

Choro o medo que ainda não tinha me permitido sentir. Abraço e começo a tremer. Permaneço apenas com o mindinho trincado. Mas agora estou segura para sentir a minha dor. E toda a frustração daquela tarde.

Choro. E quem vê pensa: ela estava ótima até a mãe chegar.

Entende agora um pouquinho porque seu filho, após ficar longe de você, com a avó, na creche ou em qualquer distância, desaba quando te encontra?

Sim, ele ou ela estava ótimo. Até você chegar. E, não. Agora não piorou. Ele só está seguro para desabar a onda que segurou…tudo que aprendeu. As frustrações que não demonstrou. O medo que sentiu.

A Raquel Jandozza, psicóloga e a doula que me acompanhou no parto do Martin, foi quem me alertou sobre esta dinâmica.

Se quando o filho nasce é estabelecida uma simbiose entre mãe e bebê, a ponto do recém-nascido chorar aquilo que a mulher cala, quando os rebentos começam a crescer, a pessoa que Materna passa a ser o primeiro e grande “outro” da criança.

Saiba mais do assunto Puerpério: Por que esse Mistério?

Então, por mais que seja saudável que estas distâncias existam para que um “serzinho vire gente”, é natural que no começo da vida sejamos olhadas como um espelho, que reflete aquilo que a criança nem sempre quis encarar ao longo do dia.

Além disso, somos o que Raquel define como depósitos. Não como alguém que serve apenas para que as crianças descarreguem. Mas, sim, como o Porto balizador que legitima aquilo que foi vivido. Mesmo que tenham sido algumas poucas horas e ótimos momentos…

“Quando essa mãe se ausenta, o bebê tem essa possibilidade de se reconhecer como ele mesmo. E isso demanda uma energia emocional muito grande da criança. Quando a mãe volta, sem muitas ferramentas para organizar tudo que foi vivenciado, a criança descarrega”, me explicou Raquel.

Ufa!

É verdade que este encontro pode ser a junção de duas partes cansadas. A criança e a exaustão Materna em um mesmo minuto tende a ser explosivo.

Então, óbvio, não to aqui querendo ser “a” evoluída capaz de comemorar o que aprendemos a chamar de birra que recepciona o encontro.

Mas, se for possível, nestes momentos é sempre bom lembrar:

1) aqueles que dizem “ela estava ótima até você chegar” não querem te atacar ou te culpar por nada. Talvez só estejam buscando um jeito de te tranquilizar e garantir que não existiu sofrimento aparente nos momentos em que vocês não estiveram juntos. Que estava tudo bem, realmente, instantes antes de você surgir.

E a real é que na maioria das vezes é isso mesmo (sim, se a criança começar a mudar de comportamento, chorar para ir ao local etc, vale muito investigar). E o lado legal é que, dentro do gerenciamento de emoções, seu filho já está segurando a onda, apesar de desabar quando te vê. E isso é grandioso. Ele está se reconhecendo!

2) Pütz… se for recebido com choro e comportamento cansado, tente abraçar, acolher, ainda que esteja exausto ou exausta. Sabe aquela sensação de tirar o sapato apertado, desabotoar o jeans 38 que você não teve coragem de aposentar? É quase isso que seu pequeno vislumbra quando te vê. E ele quer este conforto naquela hora, pouco importa que passou o dia com o dedão latejando.

Eu sei.

Em segredo da um misto de sensação. Cansa pra cacete ser o maior Porto Seguro de alguém. Envaidece pra caramba ser o maior Porto Seguro de alguém.

Nem 8 – não vou nunca sair de perto dele – nem 80- engole esse choro porque eu não sou depósito de ninguém…

Se a gente dividir, todo mundo fica bem.

Se você for quem “devolve” o filho pra mãe, troque o “ele estava ótimo ate você chegar” por, talvez, “fizemos muitas coisas hoje, brincamos a valer. Ele deve querer seu colo para descansar”.

Já Se você é quem recebe a criança que “estava ótima até a sua chegada”, tente respirar.

Ela só quer tirar o sapato. Estar com você é estar em casa…

Fernanda Aranda autora da página Dose Dupla 

Imagem: @little.olive.bird

2 Comentários
  1. Kristin Maverick 3 meses atrás

    Hola, eu achei tão lindo e importante esse texto, juro que chorei ao ler, que tenho duas filhinhas pequenas, e faz tudo sentido, nem falar sobre como até hoje eu sinto assim com a minha mãe, e ja tenho 31 anos!! Fiquei triste que não podia compartilhar com as minhas irmãs, e com a minha mãe, que sou americana e elas não falam portuguese, então resolvi traduzir ao inglês. Se você quiser, eu posso lhe mandar a redação, só me avisar para onde mandar. Abraço.

  2. Aline 3 meses atrás

    E qdo a criança muda, mas, não pelo choro ou desabafo, e sim, pelo comportamento desafiador, ou seja, qdo ele faz tudo aquilo q vc pede pra ele não fazer, como gritar, bater nos primos, desligar a televisão, ou demais artes… tbem é um “desabafo”? Pois, percebo q qdo ele está chorão e cansado é sono e, às vezes, só faz aquilo q me irrita ou não pode, sem chorar… ou será q está dizendo: “olha o q faço por ter me deixado!”

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