Em tempos de crise, é preciso ressignificar a nossa “normalidade” para nos reconectarmos com a nossa humanidade.

Vamos recordar um pouquinho do nosso mundo de alguns meses atrás? Cada um correndo em sua esteira da máquina da rotina;  tentando cumprir sua interminável lista de tarefas; correndo para chegar em algum lugar, que muitas vezes nem sabíamos direito qual era. Muitos de nós desejando por mais tempo, menos correria, menos cobranças.

Até que uma ameaça invisível aos nossos olhos começou a crescer e a viajar por este mundo. Então, da noite pro dia, a ameaça se concretizou e chegou aqui, no nosso país. E o nosso mundo mudou! A esteira desligou e batemos de cara no chão. Fomos forçados a parar. A olhar para os nossos medos, nossa ansiedade, nossas dores.

Coisas que fazíamos espontaneamente se tornaram perigosas.

Abraçar quem amamos, tocar no rosto, chegar perto das pessoas. Tudo mudou de uma hora para outra e perdemos algumas das certezas que antes nos davam segurança.

Mas uma certeza temos: estamos em luto! Em luto coletivo por um mundo que mudou de repente e que sentimos que ainda não conseguimos acompanhá-lo. Estamos perdidos e nos sentindo impotentes diante de tantas coisas que não conseguimos controlar. Muitos que estão aqui, lendo este texto, já devem ter perdido pessoas importantes alguma vez em suas vidas.

Você se lembra das sensações que sentiu depois do falecimento de alguém que você ama?

O mundo todo parece parar, nada mais faz tanto sentido. E é isso o que estamos sentindo agora, mas em um nível muito maior, coletivo.

Os processos de luto

Elizabeth Kübler-Ross, uma médica psiquiatra suíça, foi uma das maiores estudiosas sobre os processos de luto. Ela dividiu esse processo em algumas fases:

NEGAÇÃO, que seria aquele momento que ainda não queremos, ou melhor, não conseguimos acreditar no que aconteceu.

RAIVA. Ficamos furiosos porque teremos que passar por algo assim. Achamos injusto o que aconteceu. Tentamos colocar a culpa em algo ou alguém, até em nós mesmos, achando que poderíamos ter feito alguma coisa para aquilo não acontecer. Sentimos raiva por não podermos mais controlar o que achávamos que poderíamos controlar.

BARGANHA ou da NEGOCIAÇÃO, em que fazemos alguns “acordos” com o mundo: “Ah, se eu respeitar direitinho tudo o que temos que fazer no isolamento social, sairemos logo disto, né?”. Para aqueles que são religiosos: “Deus, se você me ajudar, eu juro que não vou mais fazer tal e tal coisa.”. Tentamos achar uma forma de mudar o que está acontecendo.

TRISTEZA, a fase da DEPRESSÃO, em que nos sentimos completamente impotentes, desesperançosos, com medo e com saudade de um mundo que não temos mais. Esta fase faz parecer que nada poderá voltar a ser bom novamente.

ACEITAÇÃO, que é quando aceitamos que o mundo está sim deste jeito e conseguimos compreender melhor o que está e o que não está no nosso controle. Conseguimos, assim, olhar para as nossas possibilidades reais de lidar com o que está acontecendo.

David Kessler também foi um especialista em luto, que escreveu alguns livros junto com Elizabeth Kübler-Ross. Ele adicionou uma sexta fase ao processo de luto: a fase do SIGNIFICADO. Que é quando, depois de passar por todas as fases, conseguimos dar um sentido para tudo aquilo que passamos:

O que eu posso aprender com isso? O que isto veio me ensinar? Ensinar para o mundo? E acho que estas perguntas nos ajudam muito a passar por este momento tão desafiador.

Por isso, o próximo passo é aceitar que: SIM, ESTAMOS EM CRISE!

E, EM UMA CRISE, ALGUMAS SENSAÇÕES QUE, ANTES, CONSIDERÁVAMOS DOENTIAS SÃO CONSIDERADAS ABSOLUTAMENTE NORMAIS. Você não está doente por estar com medo, por estar mais ansioso, por estar dormindo pior, por estar triste. São sentimentos normais! Você está HUMANO! E aceitar a nossa humanidade é uma das coisas mais importantes que podemos fazer agora. Deixe que os sentimentos venham: eles não são maiores do que você! Deixe-se sentir o que tiver que sentir: o sofrimento não vai te desmoronar, ele é humano.

E, agora, entramos em um ponto importantíssimo: PEÇAM AJUDA!

Não tenham vergonha de procurar ajuda! Ninguém aqui é o Super-Homem que precisa aguentar tudo sozinho.

Fomos criados em um mundo muito individualista. Aprendemos que temos que fazer tudo sozinhos, que isso é ser forte; ser maduro. Esta pandemia está abrindo os nossos olhos para algo essencial: somos seres coletivos!

A ação de um influencia na vida de todos! Quer algo mais forte para nos ensinar isso do que um vírus altamente transmissível? Dependemos dos outros e tudo bem! Isso é ser humano!

E quando conseguimos nos conectar com esta nossa vulnerabilidade, podemos ser honestos com os outros ao nosso redor sobre o que sentimos, podemos mostrar as nossas fraquezas, os nosso medos e vamos encontrar muitas pessoas sentindo as mesmas coisas.

Aproveite este momento para pensar no que é essencial na vida.

Vamos nos ajudar a chegar no lugar que verdadeiramente importa: a nós mesmos, ao lar que existe dentro de todos nós e que nos torna humanos. É só assim que vamos conseguir passar desta para algo melhor; com uma rotina que preze mais pela vida; pela solidariedade; pela justiça social. E tudo bem se você ainda não consegue achar que isto é possível, como escreveu o poeta Mário Quintana:

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

Das utopias, Mário Quintana.

Luiza Fernandes Ferreira Geronymo é formada em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e Mestre em Psicologia Social também pelo mesmo Instituto. Hoje, atua como psicóloga clínica em consultório particular em São Paulo.

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