Eu consigo acolher os defeitos do outro?

O defeito do outro sempre me incomoda. Ele é uma prova viva de que o amor romântico está saindo pela janela, em alguma medida. Eu posso até tentar fechar essa janela, mas a idealização sobre o outro vai escorrendo pelo ralo mesmo. É só os dias passarem, é só a relação ganhar corpo e tempo, que este fenômeno é inevitável. O romantismo vai se revestindo de uma verdade inconveniente. O que começou com “O meu amor tem um jeito manso que é só seu” termina como “O meu amor tem um jeito irritante que é só seu”...

RECONSTRUINDO NOSSO CASAMENTO | Jornada Terapêutica para Casais com Alexandre Coimbra Amaral e Daniela Leal
INSCRIÇÕES ABERTAS: https://bit.ly/3erBG7K
*Para aqueles que estão em sofrimento por sucessivas crises no relacionamento conjugal e que buscam caminhos de reencontro.*

Não nos casamos com o príncipe. O casamento verdadeiro é com as verrugas do sapo.

Um casamento de verdade é aquele que desafia o ideal, que consegue acolher as pessoas de verdade. Pense comigo, honestamente:

Você quer o reconhecimento de uma imagem sua mais fantasiosa, mais inatingível, ou mais verdadeira? Que dor, hein, sentir que o outro ama uma pessoa que não existe, e que não é você? Pois. Imagine que você faça o mesmo, e que esta miopia precisa ser corrigida. Um ajuste no olhar de um para o outro.

E, claro, comecemos por você. Você consegue fazer esse ajuste? O que a sua forma de amar vai conseguindo elaborar com a chegada das frustrações? Elas acontecem, deixam você de que jeito?

A Chegada das Frustrações

Primeiramente, cuidado se você se considera uma pessoa impulsiva. Pode ser que diga ou faça coisas de que se arrependa, na hora em que se frustra com o seu amor. A frustração não é responsabilidade do outro, e sim nossa. Nós fomos os criadores das ilusões, embora elas tenham sido alimentadas pelo silêncio do parceiro amoroso. Quando dizemos para o outro: “Você é assim, um sonho pra mim”, e ele não diz nada, só sorri e beija e fim, o que está dizendo? Que você pode acreditar nisso!

Todos fazemos isso, calma, não há ninguém que diga no auge da paixão: “não, eu não sou essa pessoa, deixe de me idealizar assim, vou te contar meus defeitos mais sombrios aqui de cara”. Não. Não dizemos isso. Mas pode ser que seja a hora de dizer. Pode ser que seja a hora de construir uma conversa sobre nossas realidades mais imperfeitas; porque assumir a imperfeição do outro é convidá-lo a assumir as suas.

Veja que coisa linda e revolucionária: as imperfeições, tão temidas e escondidas quando estamos na conquista ou no apaixonamento, são a marca da verdade, da transparência e do direito de ser vista na sua integridade. Quanto mais um relacionamento comporta a imperfeição, mais ele te dá espaço para ser vista como sempre quis.

Que paradoxo estranho esse, não é? O amor começa como uma ilusão e evolui para a transparência.

Como você lida com a perda das ilusões em sua vida? Como acontece a chegada do real, tantas vezes ingrato? Olha, 2020 foi uma avalanche de perda de ilusões em série. De repente você pode voltar à sua experiência durante esse ano inesquecível, e entender como você foi incorporando todas as novidades sobre si, sobre a vida, sobre o futuro e sobre o mundo incertos. Pode te ajudar neste processo de saber melhor sobre como você elabora lutos.

Porque quando nos frustramos, nos enlutamos. Morre uma ilusão, morre uma imagem que não consegue corresponder ao que se vê e ao que se sente. Enlutar-se leva tempo, precisa de silêncio e som. Silêncio para entender, som para conversar. Não há forma outra de elaborar as frustrações com quem se ama, senão se dando um tempo de recolhimento para processar esta novidade, e sentir se é possível continuar.

Estamos no tempo da “fila que anda”, e isso faz com que as pessoas tenham maior tendência a desistir do outro diante de pequenas frustrações sobre ele. Mas se você está vendo este vídeo, provavelmente está na situação contrária, no desejo de insistir e continuar o relacionamento, cada vez mais realista, mas que possa continuar a ser uma fonte de amor e algum encantamento.

As frustrações podem não ser a morte absoluta da capacidade de estar com o outro.

Os defeitos dele ou dela podem ser revestidos de tolerância, compaixão ou até mesmo de humor. Rir um pouco de si e do outro sempre faz bem, durante a aventura de amar. O que não dá, o que pode ser a marca de uma crise grave, é quando você descobre que o outro se mostrou avesso a valores que são fundamentais para você. Aí a coisa fica realmente mais séria, e é hora de trazer para uma conversa com um terapeuta de casais, por exemplo, este impasse que se mostra em forma de abismos.

Continuem conosco nessa série Reconstruindo o nosso Casamento, VEJA AQUI OS OUTROS POSTS DA SÉRIE!

por Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo, Mestre em Psicologia pela PUC do Chile Terapeuta de Casais, Famílias, Grupos e Comunidades. Psicólogo do Programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo. Colunista da Revista Crescer (Editora Globo) e do Portal Lunetas (www.lunetas.com.br).