O Filho Mais Velho e o Puerpério

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O que o meu filho mais velho sente quando nasce um irmã/o?
Como coordenar tanta necessidade dentro de uma casa?

A chegada de um segundo filho abre uma reflexão sobre a diferença entre os puerpérios. Mesmo que você tenha 10 filhos, você terá 10 experiências puerperais diferentes.
Primeiramente, eu quero deixar claro que a ordem do nascimento dos filhos é soberana na determinação de muitas características da existência desses dois bebês, dessas duas crianças.

Jean-Paul Sartre dizia que a existência e precede a essência, portanto tem dados da vida que são dados de existência e nós precisamos acatá-los, entender o que eles trazem para nós. Então, a ordem de nascimento de um filho é um desses dados de existência o filho primogênito, que vai ser o único dentro da sua família que vai viver a experiência do cuidado exclusivo.

A exclusividade que é um dos valores que nós temos sobre o amor materno, temos a expectativa de que os nossos filhos sintam a exclusividade do nosso amor, que eles sintam que eles são amados como nenhum outro amor da nossa vida; essa é uma das carências humanas, das necessidades humanas básicas e quando nós temos esta oportunidade de ofertar tanto a exclusividade de cuidado de afeto com primeiro o filho, na hora que chega o segundo, que já nascerá impossibilitado de ter essa exclusividade, podemos entrar num dilema, que às vezes pode ser até um dilema ético.

Será que é possível ficar reparando, ou construindo reparações, já que o mais velho teve a oportunidade de viver o amor exclusivo, e o outro filho que nasceu em segundo e não viverá essa exclusividade.

O que eu vou precisar fazer para ele sentir que é igualmente amado por mim? É interessante perceber que nesta hora nós queremos fazer uma equiparação do cuidado, da atenção a esses filhos, e muitas vezes antes dele nascer, nós temos medo: será nós vamos conseguir amá-lo da mesma forma?

Então, o que podemos entender é que faz parte da história do segundo filho aceitar que ele vem nessa posição na família e que ele terá uma mãe dividida com o primeiro, assim como o primeiro, o primogênito, vai viver essas duas fases na vida: a fase exclusiva e a fase a partir da qual ele vai sempre ter que dividir o amor com essa mãe; é por isso que isso é uma grande transição para o filho mais velho, também é o puerpério dele, porque ele também precisa entender, sentir e elaborar a chegada desse outro irmã(o) que vai retirar dele essa exclusividade.

Agora imagine o que sente uma criança que deixou de ser exclusiva!

Isso é muito forte, e muitas vezes nós não conseguimos compreender a força visceral dessa sensação, muitas vezes são crianças na faixa dos dois anos, que ainda está puro sentimento, pura expressão, não podemos cobrar dela maturidade para compreender, maturidade a qual muitas vezes nem nós pais e mães temos, porque se você mãe está começando a construir culpa por não estar conseguindo fazer pelo segundo a mesma coisa que você fez pelo primeiro, se isso está sendo difícil para você, imagine pra essa criança de dois anos, de três anos, às vezes de um ano que tem que lidar com essa energia forte que ele está sentindo: de raiva de medo; de perder o amor.

Então a primeira coisa que nós temos que fazer é se colocar no lugar dessa criança: ela tem direito de sentir e isso é normal.

A primeira coisa a fazer quando seu filho tiver exacerbado nessa inconsistência na aceitação desse irmã/o, ao invés de moralizar a história dizendo: “você tem que aceitar” ou “mas é o seu irmãozinho”, antes de você dizer esse texto todo, abrace seu filho diga a ele que você entende, que é normal: “Nossa filho que difícil! Você não queria que o seu irmã/o tivesse aqui desse jeito, queria uma mãe só pra você, eu entendi que é isso que você queria”, esse movimento vai acalentando o coraçãozinho dele , fazendo ele entender que você compreende o que ele está sentindo,  isso não quer dizer que você tenha que ter uma resposta pra isso, porque essa resposta quem vai encontrar é ele. Mas para essa criança já é muita coisa saber que você consegue compreender e legitimar essas emoções desencontradas que ele está vivendo.

Na hora que um/a irmãozinho chega é muito barulho dentro de uma criança, dentro de um primogênito

E esse barulho pode ser silenciado com um tanto de afeto, com um tanto de carinho, que pode ser feito com o pai na hora que a mãe tiver cuidando do filho menor, mas a mãe também vai ter que cuidar em algum momento de estar só com esse filho mais velho, mesmo que seja por alguns minutos em que você possa entrar em conexão com ele e assim a criança poder sentir que você dá atenção para as emoções dele, como sempre aconteceu.

Não é fácil, é de causar cansaço! Pode causar às vezes desespero,  você pode ter muita raiva e às vezes ter sensação de que não tem saída, mas é possível.

Sobretudo os filhos mais velhos, que já tem um pouco mais de maturidade de compreender as coisas, eles conseguem tolerar as nossas falhas, eles conseguem tolerar a nossa humanidade, porque é nessa humanidade que eles se constituem, é na hora em que nós somos imperfeitos que eles conseguem conceber que eles podem ser humanos.

Então, se entregue a isso: abrace muito seu filho!

Compreenda, converse com ele, legitime os sentimentos dele sobre a chegada de seu irmã/o, vai fazer muito bem  a você e a ele, vai lhe ajudar a entender que cada filho tem o seu lugar, cada filho tem o seu momento de ter a cena elevada, cada filho terá seu momento de conexão profunda com você. Quando os dois estiverem maiores, eles já vão estar acostumados com o fato de que você pode estar junto com eles, numa mesma cena. E vai ser ainda mais divertido! Mas sobretudo para esse primeiro momento, a palavra de ordem é empatia, entrar em conexão com que ele deve estar sentindo, ao invés de legislar e imediatamente, ao invés de dizer “você não pode ser assim”, abraçe e assim você vai ver que as coisas vão ficando melhores.

Por Alexandre Coimbra Amaral, Terapeuta familiar, de casais e de grupos, fundador do Instituto Aripe. É psicólogo do programa “Encontro com Fátima Bernardes” da Rede Globo.

Imagem: @mixedmombrownbabies