por Alexandre Coimbra Amaral para o Portal Lunetas

Os dedos, nervosos, não aguentam mais. Eles têm a certeza de, ao escorrerem o texto das redes sociais, mostrarem à dona ou dono do celular aquilo que jamais tenha querido saber. O destino dos polegares, hoje, é assombrar os olhos de quem os comanda.

Quem diria. Logo eles, os polegares tímidos, que nunca tiveram a façanha de apontar nada (função essencial do vizinho, o dedo indicador) agora mostram horrores humanos diários e, para muitas pessoas, ao invés de servirem para cumprimentar com um joia, se prestam à infame mímica de arminha pra lá e pra cá.

Estamos cansadas e cansados, e quem haverá de discordar que esta palavra não consegue mais representar a exaustão das almas. Tantas palavras tentando bordejar o infinito das sensações de quem está com as vísceras invertidas, com a esperança se ressecando na pele, com o coração sem saber como fazer Comunicação Não-Violenta de suas batidas raivosas, com o pulmão entristecido em tosses, querendo cuspir o desencanto.

É muito espanto para qualquer tipo de gente, somos testemunhas dos adoecimentos até daquelas e daqueles que imaginávamos infalíveis na arte da resiliência cotidiana.

Cuidar de si é um ato de soberania individual. Começamos a vida sendo cuidados, e vamos celebrando, ainda infantes, cada conquista mínima que diga ao mundo: “eu posso fazer sozinho!” O amor de quem cuida de uma criança tem tudo a ver com isto:

“a criança bem amada, nutrida com o afeto-oxigênio da vida, se sente cada vez mais pronta para ir para o mundo.”

O verdadeiro amor é mesmo libertário. Amar um filho é, também, ensiná-lo a se cuidar diante das necessidades intermináveis dos dias, e dizer para ele que confia em sua capacidade de ficar bem, mesmo longe do alcance dos braços de seus cuidadores.

A questão é que temos cuidado de tantas causas, de tantas frentes de luta, construindo tantas respostas aos desvarios de nosso tempo, que todo o autocuidado que aprendemos a ter não tem sido suficiente. Continuamos com os corpos condoídos, com os suspiros aparecendo no lugar das palavras que nem sabemos mais dizer.

Enquanto vamos tentando novas e novas formas de ganhar saúde diante da sensação de caos, há diante de nós uma luz que não cessa o seu brilho. São pessoas às vezes de pouco mais de um metro, menos de meia década de vida. São brincantes. São guardiões da fantasia que não mantivemos na adultez. São presentificadores da existência, só sabem brincar no tempo presente.

O tempo não lhes escorre pelos dedos, porque eles não têm tempo para se preocupar com estas agonias, precisam brincar como um imperativo, um “tem que” que simplesmente tem que acontecer. Enquanto nós nos angustiamos diante da consciência sobre o mundo, eles brincam para conseguirem crescer em paz.

São nossos filhos. Apesar e além de tudo, eles brincam. A brincadeira lhes serve de abrigo. Nós estamos ao lado, com os dedos polegares trêmulos, a boca aberta de puro “eu não acredito”, consumindo tragédias. Eles nos pedem para desligar o aparelho viciante.

Eles são os sábios da cena.

Eles sabem, sem titubeios, que brincar é o instrumento. O princípio, o fim e o meio.

É hora de ordenar que o nosso indicador desligue o aparelho. É hora de aproveitar a chance que a infância nos dá. É hora de reintegrar a posse da nossa ludicidade, como potente antídoto para os males de um tempo que ainda nem chegamos a entender. Antes do cérebro adulto continuar a dar suas piruetas, é hora de descer da cadeira, sentar ou deitar no chão, olhar nos olhos de quem nos chama e dizer, com a voz de quem se ama:

“Filho, me brinque?”

Alexandra Coimbra Amaral é Terapeuta familiar, de casais e de grupos, fundador do Instituto Aripe. É psicólogo do programa “Encontro com Fátima Bernardes” da Rede Globo.

3a TURMA FORMAÇÃO DANCE MÃE E BEBÊ

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