Maternidade Ineficiente

Eficiência é um substantivo feminino e se caracteriza pela virtude ou característica de alguém ser competente, produtivo, de conseguir o melhor rendimento com o mínimo de perda de tempo. 
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Enquanto acompanhava as tarefas da escola do meu filho de 8 anos, ele resolveu fazer uma busca do meu nome no Google. Apareceu lá meu currículo. Uma descrição de antes de eu ser a Rachel Savir, mãe do Pedrinho.  Antes eu era Gestora de RH. Mesmo com a formação em Psicologia, eu estudava ferramentas de gestão, indicadores de produtividade. Planilhas, números e metas.

Eu era a rainha dos checklists.

Tinha uma equipe grande e de áreas distintas da minha formação. Iniciei fazendo seleção e treinamento, mas, quanto mais eu mostrava interesse e dedicação, mais ia crescendo. Horas e horas de estudo para entender sobre medicina e segurança do trabalho, gestão de benefícios, folha de pagamento, segurança patrimonial, direito trabalhista, tecnologia da informação. Eu precisava ter credibilidade. Eu era um trator. E sim, tinha orgulho disso. Me sentia altamente eficiente.  

Eficiência é um substantivo feminino e se caracteriza pela virtude ou característica de alguém ser competente, produtivo, de conseguir o melhor rendimento com o mínimo de perda de tempo. 

Esses dias me dei conta de que a maternidade me roubou essa sensação.

Desde muito cedo, me dei conta que não era possível criar os filhos no meu ritmo “produtivo”. Eles têm um ritmo próprio da infância, do temperamento, das questões, inclusive, da ordem prática dos seus desenvolvimentos! Não foi ou é fácil lidar com isso para mim. Fazer devagar, ou simplesmente não conseguir fazer algumas coisas acontecerem. Meu checklist é digno de vergonha. Todos os dias, muitas atividades simplesmente não são feitas como deveriam. Uma lista enorme de pendências — vacina atrasada: temos! Tarefas escolares não realizadas: temos! Armários com roupas que não cabem mais, unhas por cortar (sempre), dentes sujos… a lista é infinita. Em relação a coisas que eu gostaria de fazer por mim, então: da academia ao seriado preferido que não consigo acompanhar — quem dirá maratonar — ou da pilha de livros comprados e não lidos!

Altamente ineficiente! 

E, ao me dar conta disso, percebo ser importante fazer as pazes com a minha condição diariamente e várias vezes por dia, ou será impossível viver uma criação com conexão com a infância.

 A infância requer é esse tempo sem pressa, essa entrega, a experiência do ócio, para que dela possa emergir a fantasia. Se quisermos tentar colocar a infância dos nossos filhos no checklist, certamente vamos perder a beleza do encantamento com cada surpresa que eles nos oferecem diariamente.

Não estou aqui dizendo que a maternidade tira a nossa capacidade de sermos produtivas. Na real, eu penso que aumenta e muito esse potencial, que alguns afirmam ser predicados femininos, de estar sempre fazendo dez coisas ao mesmo tempo. Porém eu renuncio esse superpoder!

Não quero ser mais uma mãe altamente eficiente, que não conseguiu tempo de usufruir da conexão com seus filhos. De forma inconsciente, assumimos esse modo de ser como único possível e pagamos um preço pela nossa alta eficiência!  

Então eu vou repetir esse mantra diariamente como uma prece: 

“Está tudo bem em ser uma mãe ineficiente! 

Eu me libero de tanta culpa por não dar conta da lista infinita de afazeres. 

Eu me libero da tensão de fazer com que todos caibam no meu tempo de fazer as coisas.

Eu me libero da sensação de pena que ficou por meus filhos não terem mensários, aniversários e demais festinhas dignas de fotos do Pinterest.

Eu me libero da vergonha de não ser a mãe exemplar da turminha, que assume a organização dos eventos com louvor.

Eu aceito que muitas coisas vão ficar imperfeitas e aquém do que eu teria condições de fazer.

Eu serei mais flexível ao lidar com imprevistos frequentes de quem tem crianças pequenas e não me importarei com as piadas sobre os meus atrasos aos eventos, em especial os de família. 

Eu me perdoo se, em algum momento, eu perder a paciência com meu filho e sair um grito enfurecido de quem está extremamente cansada.  

Eu tentarei ouvir e acolher com compaixão o ódio dos meus filhos quando eu disser algum não, sem deixar abalar a segurança do amor que temos um pelo outro.  

Eu prometo que criarei espaços para cuidar de mim, apesar da minha lista de pendências com eles, pois eu acredito que só assim conseguirei ser fiel a todas às minhas promessas anteriores.

Eu reconheço que estou dando o meu melhor e procurando ser melhor a cada dia.

E confio que, um dia, lá na frente, eles terão boas lembranças da relação que construímos.”

 

Por Rachel Savir, Psicóloga CRP 11/04348,  Rachel está no Instituto Aripe preparando o módulo Avançado em Teoria do Apego – tem interesse? Vai em https://aripe.com.br/teoria-do-apego-avancado/

Imagem : Elliana Allon