por Daniela Leal, psicóloga.

A relação de amamentação é pautada, em nossa sociedade, por discursos essencialmente duplo vinculares.

Na Psicologia Sistêmica o conceito de DUPLO VÍNCULO (Bateson, 1956) nos ajuda a compreender dinâmicas paradoxais da comunicação humana. O duplo vínculo acontece, muito resumidamente, quando uma pessoa recebe de seu(s) interlocutor(es), ao mesmo tempo, mensagens contraditórias entre si, de tal forma que se vê em um impasse, impossibilitada de responder de forma satisfatória. Esse processo, quando acontece repetidamente, é capaz de gerar um nível profundo de confusão mental e emocional ou até mesmo comprometer a saúde psíquica, nos casos mais graves, dentro das relações familiares em que o duplo vínculo acontece entre mãe, pai e filho(a).

Mas aqui eu estou trazendo essa teoria da terapia de família para as relações sociais e para a comunicação que acontece entre rede social, cultura e indivíduo, nesse caso, a mãe que amamenta.

A mulher que se torna mãe em nossa cultura se vê diante de um mundo que diz a ela que a maternidade e a amamentação são uma série de coisas, geralmente inconciliáveis.

Se formos revisitar o que se escuta sobre amamentar e ser mãe nos contextos mais diversos, podemos reconhecer infinitas situações em que a mulher se vê diante de mensagens contraditórias capazes de gerar desamparo, solidão e sensação de inadequação e culpa materna…

Amamentar é um ato de amor.
[Mas bebês que mamam podem ficar muito dependentes. Dormir com o bebê e deixar no colo podem estragar seu filho]

O leite materno é o melhor alimento para o bebê
[Mas veja como as fórmulas novas são uma tecnologia maravilhosa! se está desafiador, deixa pra lá, o aleitamento artificial nem faz diferença de fato, só mesmo pras classes mais vulneráveis…]

Amamentar é natural!
[Mas se você quiser amamentar e estiver entre a maioria das mulheres que têm questões desafiadoras, especialmente no estabelecimento da amamentação, dificilmente encontrará orientação profissional adequada, a não ser que busque em contextos específicos de profissionais que apoiam o aleitamento]

Amamentar enquanto estiver bom para a mãe e o bebê é o ideal!
[Mas nossa, que mãe desnaturada aquela que preferiu desmamar só por questões dela!]

A amamentação deve ser exclusiva até os 6 meses.
[Mas você tem que voltar ao trabalho aos quatro, de repente é até bom que ele comece a comer antes.]

O bebê deve mamar em livre demanda.
[Mas bebês podem ser manipuladores e fazer o peito de chupeta]

A amamentação deve ser até os dois anos ou mais
[Mas ele ainda mama?!!!]

A maternidade é a maior benção que uma mulher pode viver
[Mas você terá que embalar Mateus sozinha por que o pariu e na hora de fazer foi bom]

Que bom que ele está mamando bem e ganhando peso!
[Mas nossa, esse bebê está viciado no peito! Você não vai ter vida!]

Amamentar é um ato belo, veja nessas campanhas, como é lindo!
[Mas cubra esses peitos porque ainda existem lugares públicos em que uma mulher pode ser constrangida por estar amamentando como se fosse um ato obsceno e desrespeitoso com os outros.]
.

Em uma fase de tanta vulnerabilidade, em que as tarefas existenciais que se apresentam demandam tanto da mulher, física e emocionalmente, em que uma nova identidade está em formação, com todos os lutos e inseguranças que isso implica, faz toda a diferença que possamos apontar esses ardis em que a cultura enreda as mães e bebês. Porque ainda que se leve tempo para transformar a realidade sócio-cultural, ganhar consciência sobre os seus funcionamentos e mecanismos de controle de nossas crenças e comportamentos, nos liberta, em algum nível para não internalizarmos o problema.

Para não acharmos que são as mães que não dão conta e falham cotidianamente. Para construirmos escolhas com mais autonomia, escolhas cheias de sentido para nós, mais conectadas com nossos valores.

Porque por trás dos peitos, existimos nós, as mulheres. E não há como existirem mulheres e mães que sejam boas o suficiente para essas expectativas que nos condenam a fracassar, independentente do que escolhermos. Essa é a maternidade do impossível que gera enlouquecimento, culpa, isolamento.

Não, obrigada. Não somos obrigadas.

por Daniela Leal é psicóloga, mãe de três meninos e entusiasta da Partolândia e da Mamolândia há mais de uma década. Acredita na força dos grupos de apoio como um espaço poderoso de (re)construção de identidades.

4a Turma Psicologia do Puerpério com Alexandre Coimbra Amaral

2 Comentários
  1. Aline Lorini 4 semanas atrás

    Essa questão de amamentação judia demais de mãe como eu que não conseguiram amamentar seus bebês. Tive leite por 2 meses apenas, por 20 dias foi um esforço tremendo manter meu filho alimentado só com leite materno, até máquina pra tirar leite comprei, pq achei que a pega tava errada. Tirava durante as sonecas dele, que duravam 1 h, nesse tem tinha vezes que conseguia 30ml das duas mamas. Em todo lugar que eu lia, sempre era eu que estava fazendo algo errado, tentei de tudo, bebia 3 l de água por dia, pq diziam que precisava beber bastante água, colocava aquela maquina pra sugar, pq diziam que era a sucção que produzia mais leite, mas em lugar algum eu li que ás vezes isso acontece e que não importa o esforço que se faça, pode não funcionar, ainda hoje pesquiso pra saber se fiz algo de errado, pq meu filho sempre mamou bem, nunca tive dor pra amamentar eu só não tinha leite. Porque esse tema é tão pouco abordado? Porque sempre é algo que a mãe deixou de fazer? Minha irmã amamentou menos tempo que eu, tenho uma amiga que está brigando com isso agora, de uma hora pra outra o peito que jorrava leite, vai ficando seco, porque não se fala dessas mãezinhas, que depois que começam a complementar passam o resto da vida culpadas por que acham que não se esforçaram o suficiente. Eu não tive problemas com bico rachado, nem com dor, nem com nada disso, sempre foi super tranquilo, até o tempo que o leite que eu produzia não era suficiente pro meu filho se alimentar. Eu não sei vocês, mas ver um bebezinho chorar de fome é mais doloroso do que a culpa de dar a mamadeira. Gostaria de ler mais sobre mães que também passaram por isso. Obrigada!

    • Autor
      tarsilakato 4 semanas atrás

      Olá Aline, somos gratos por você acompanhar nosso canal. Um forte abraço para você tenha a certeza que você fez o melhor e que a culpa realmente não é sua. As mulheres enfrentam um batalha colossal no Brasil para conseguirem amamentar, nossos índices de tempo de amamentação são baixíssimos se comparados com o que preconiza a Organização Mundial da Saúde, será que as mulheres brasileiras são defeituosas? Não! A resposta é que temos um ambiente totalmente desfavorável: médicos e enfermeiros que não sabem lidar com a amamentação e pressionam as mães com as curvas de crescimento e outras informações desatualizadas, não temos uma legislação trabalhista que realmente incentive a amamentação, e no meio de tudo isso as mulheres recém-mães jogadas aos leões com suas inseguranças e medos. Você é uma vitoriosa mesmo com todo o ambiente hostil que você enfrentou, você conseguiu amamentar por 2 meses.

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