O Avesso da Depressão

Muita gente confunde puerpério normal com depressão pós-parto, exatamente porque desconhece e desconsidera a grandiosidade da transição da identidade feminina que são esses meses ou anos puerperais.

 

Nesse momento a mulher está conhecendo sobre si, o seu bebê

Esse novo vínculo, esse compromisso com a eternidade que ela assumiu através da escolha da maternidade e ela está, também, entendendo o tamanho da transformação da vida dela. Isso muda todas as áreas da vida da mulher.

No meio de toda essa transição, todas as mulheres vivem muita dúvida e muita incompreensão por parte do mundo, porque nós vivemos em uma sociedade judaico cristã que diz que, a maternidade é como se fosse o topo da montanha da biografia de uma mulher.

Aquilo com qual ela sempre sonhou; acontece que é uma função nova, é um papel novo, muito extenuante, muito exigente para a alma, para o psiquismo, para o funcionamento, para a logística de vida de uma mulher.

Então, no meio desse processo pode ser que ela deprima.

A depressão muitas vezes não começa no puerpério, ela é diagnosticada com sorte no puerpério.

Elas podem vir de antes da gravidez, podem se estabelecer na gravidez, no parto ou no puerpério. Nós vivemos muitas experiências dramáticas de mulheres que viveram depressões e não foram bem tratadas.

As depressões portanto, eu prefiro chamá-las de depressões maternas.

As depressões maternas, elas podem vir de antes da gravidez, podem se estabelecer na gravidez, no parto ou no puerpério.

Por que no parto?

Porque o parto pode ser violento. E a violência obstétrica é um grande fator de risco para eclosão das depressões maternas, mas nos geral elas vão ser diagnosticadas no puerpério.

E essas depressões têm a ver com um decaimento muito brusco e consecutivo do humor e da vitalidade dessa mulher.

Então ela vai começar a descer uma ladeira de desespero, desesperança, desânimo, desconexão com o bebê, com as coisas que ela gosta de fazer, porque acordar um dia ou outro mais desanimado, qualquer um de nós vive.

Ainda mais uma mulher que está tendo privação de sono, sono fracionado por causa de amamentação e etc.

Mas quando esse movimento, dura pelo menos 15 dias, estamos diante de um início de um quadro depressivo no pós parto, que pode acontecer até dois anos e meio depois do nascimento desse bebê, ou da chegada desse bebê se ele for um bebê adotivo.

Depressão Materna

Então a gente precisa parar de pensar que a depressão pós parto é com bebê pequeno dos braços, é durante a licença maternidade. É durante todo esse processo de adaptação a chegada desse bebê e de  transformação de identidade dessa mulher chamado puerpério.

Ele pode acontecer e pode não acontecer.

No Brasil nós temos uma estimativa da Fiocruz, que uma em cada quatro mulheres brasileiras se deprimem no pós parto.

Importante sabermos a diferença, importante estarmos atentos aos sintomas.

Quando a mulher estiver se distanciando do seu bebê, se desvinculando, deixando de se preocupar com ele ou irritada demais para cuidar dele, ou se sentindo muito incompetente para lidar com ele.  Quando ela estiver se sentindo desesperada com a complexidade dessa atividade materna; se sentindo sem recursos para lidar com a chegada do bebê, com os vários momentos dessas fases do desenvolvimento, que vão se sucedendo e que são sempre novidades.

Aquela sensação de um vídeo game do zero na hora que o bebê dá um salto de desenvolvimento e você tem que aprender tudo de novo sobre como ele se comporta, como cuidar melhor dele, como ele fica melhor, o jeito que ele dorme melhor, o jeito que ele acorda melhor, tudo isso são exemplos, situações que desgastam emocionalmente essa mulher.

Solidão Materna

Vivemos em uma sociedade machista estruturalmente onde a imensa maioria das mulheres puérperas está absolutamente solitária, sobretudo as mães realmente solo, mas temos muitas mulheres casadas que continuam esse tipo de sensação de solidão com o passar do tempo, porque ainda tem o marido que só ajuda.

Então tudo isso faz parte de um processo de desenvolvimento dessa identidade feminina no puerpério que pode coincidir com a eclosão de uma depressão.

Eu espero que você encontre nesse conteúdo, uma possibilidade de diálogo interno que permita você a entender a importância de falarmos, cada vez mais, e estudarmos esse fenômeno.

Em breve estaremos de volta, até mais!

por Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo, Mestre em Psicologia pela PUC do Chile Terapeuta de Casais, Famílias, Grupos e Comunidades.
Psicólogo do Programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo. Colunista da Revista Crescer (Editora Globo) e do Portal Lunetas (www.lunetas.com.br).