O casamento no puerpério

Casamento no Puerpério, esse é um tema que faz parte do tabu sobre puerpério. É inevitável que sempre aconteça uma crise no casal depois do nascimento de um filho.

O casamento no puerpério

Nossa conversa hoje dentro do tema puerpério é o casamento. Essa entidade que estremece. Que fica absolutamente desencontrada. Em alguns momentos você sente que está separada do seu cônjuge. Ou que você está separado da sua esposa.

O que é isso? Por que isso acontece justamente quando estão recebendo o maior presente da vida de vocês? Como isso acontece? Por que isso vem na mesma hora em que vocês são arrebatados com tanta felicidade? Por que esse desencontro acontece?

Esse é um tema que faz parte do tabu sobre puerpério. É inevitável que sempre aconteça uma crise no casal depois do nascimento de um filho. Crise é uma reação normal ao um evento anormal, um evento extraordinário na vida da pessoa. O filho é um evento extraordinário que chega balançando todas as certezas que tínhamos sobre a vida.

Num espaço onde o casal construiu os seus parâmetros de vida, de convivência de um para o outro, chega esse terceiro pedindo licença. E, às vezes, de uma forma bem energética, com choro, noites mal dormidas, dificuldade em amamentar.

A transformação do casal

Com um monte de contratempos no processo de ajuste da chegada do bebê, esse terceiro elemento chega ocupando o tempo e o espaço que antes o casal dedicava um para o outro. Se pensarmos somente nessa questão, já temos um motivo para o casal se desorganizar. Para o casal entrar em outra dimensão, outra frequência.

Além disso, acontece que os dois se transformam, os dois mudam. Eles não vão ser o mesmo casal porque eles não serão as mesmas pessoas. Assim como você olha para o bebê querendo entender que ser é aquele que veio para você, querendo construir intimidade com ele. Você vai olhar para você e para seu parceiro amoroso para descobrir em quem vocês estão se transformando. Essa é a mágica da história.

A dor do desencontro

Mas, por trás disso tem muito sofrimento, muita dor, muito desencontro. Porque quebra com o ideal de amor romântico. O amo romântico nos passa a impressão de que os “felizes para sempre” podem se reeditar com a chegada de um filho. Essa é uma grande ilusão das pessoas que decidem ter filho para segurar um casamento, para dar uma turbinada na relação, para acrescentar um elemento novo.

O grande encontro com o real é perceber que o filho traz dúvidas, dilemas, incompreensões, vontades de ser mais visto. O homem e a mulher têm vontade de serem mais vistos pelo parceiro. Os dois se sentem em déficit um com o outro, “eu deveria estar fazendo mais coisas por você”.

Na nossa cultura machista, as mulheres são ensinadas a servirem os seus maridos. Infelizmente, nós ainda temos muitas mulheres que ainda se sentem em débito com os seus maridos porque não estão cumprindo uma espécie de obrigação conjugal. E conjugalidade não é obrigação. É entrega, é vontade, é desejo.

Às vezes, o bebê demanda tanta energia dessa mulher e desse homem que a sobra muito pouco para a sexualidade, para o carinho e para a tolerância. Porque toda a cota de energia, tolerância e dedicação está colocada nesse bebê.

A crise no casamento

Aos poucos os casais podem ir se ajustando. Por isso que os casais sobrevivem a esse processo. Mas é importante entender que não vai ser da mesma forma. E quantos puerpérios houver, mais a necessidade de uma reacomodação.

Então, é uma morte em vida que o casamento vive nessa circunstância. Porque morre uma fase do casamento, para nascer outra. Morre um pedaço da vida conjugal. Muitos casais falam sobre a perda da liberdade, porque o filho traz uma necessidade de rotina e estruturação de horários.

É como se a vida tivesse dado uma encaretada. É como se o casal tivesse feito uma virada conservadora. E junto com essa virada conservadora vem uma readaptação desse casal, que antes poderia, por exemplo, ter curtido muita brincadeira juntos. E agora estão ali centrados na adaptação de todo esse novo processo.

O pós-parto, não só o pós-parto imediato, mas sim pelo menos o primeiro ano de vida do bebê, é um ano de muita crise no casamento. É um ano de reencontrar-se com o outro.

E muitas vezes, a gente pode ter a sensação de que o início da transformação pode parecer o fim de um casamento, de uma era. Isso pode ajudar a explicar, por exemplo, porque nós temos nos dois últimos sensos do Brasil dados estarrecedores de separações conjugais logo depois do nascimento do primeiro filho. Isso pode apontar para uma dificuldade nossa em esperar o tempo da vida. O nosso tempo de nos readaptarmos ao parceiro.

E, de repente, algumas crises não nomeadas e não sentidas de lá de trás podem vir à tona junto com todo esse período puerperal. Então, a relação não aguenta, explode e termina. O que é uma pena porque pode ser que esse casal ainda pudesse ter tempo para se reconhecer e se readaptar um ao outro. Mas é um exercício constante de se imaginar recasando com a mesma pessoa.

A oportunidade do recasamento  

Puerpério é só um momento a mais que você estará se recasando com sua parceira e seu parceiro. Se você aproveitar esse momento para entender de que formas você pode ir se recasando com essa pessoa, porque você também está se recasando com você, isso pode te fazer muito bem. Não só para sua relação conjugal, mas para tornar mais longevas todas as relações da sua vida.

Porque nós realmente nascemos e morremos muitas vezes em nossa vida. E o casamento é apenas um dos lugares em que isso acontece. Portanto, não é porque ele é doloroso que deve ser evitado. Pelo ao contrário. É enfrentando isso que a gente aprende a sustentar uma relação que ganha em profundidade, com a complexidade desse momento de ter um bebê dentro de casa.

por Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo e terapeuta familiar e de casais

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11 respostas

  1. Oi Alexandre, estou nesta estatística tb. Sinto que a chegada do bebê apenas aumentou com uma lupa coisas já existentes e eu apenas desisti deste homem, preciso de um tempo, preciso eu me redescobrir, casar comigo mesma, buscar força em mim. Houve muita mudança sim, pessoalmente renasci, assumi e aceitei sombras e coisas q antes eu não reconhecia como manhãs. Este está sendo o meu processo. Sinto que para de fato renascer, preciso fazer isso sozinha, sem ele. E me sinto estranhamente confortável em dizer isso. Matemos a amizade e não estou achando isso de todo ruim.

  2. Susana, comigo também foi assim. Quando tento descrever para alguém também falo da lupa, de como certas coisas ficaram mais claras depois da chegada da nossa filha.

  3. Ah essa lupa!!! Aqui também, era como se tudo que vejo hoje a 17 dias do puerpério, sempre esteve lá. Mas agora está sendo visto com clareza pois essa lupa ampliou e mostrou tudo com muito detalhe. Mas pra mim, vem com uma dose de tristeza, pois sinto que esperava a presença e o apoio que não chegou… E se estou só, algo forte ainda que envolvido com os hormônios do puerpério que se reorganizam, mas sinto em seguir sem esse companheiro, que hoje sinto tão ausente.

  4. primeiramente gostaria muito de agradecer por cada conteúdo postado neste site,afinal de contas poucos são os lugares onde se pode conversar abertamente sobre o tema ,amplamente vivido mas pouco discutido e talvez por isso a instituição do casamento e do divórcio esteja no grau e ranking que está nas discussões sociais.

    o seu site está de parabéns e pelo amor de deus nunca deixe de continuar este projeto eu agradeço muito.

    quanto ao tema de casamento gostaira de complementar que é uma instituição milenar mas hoje muito atacada,de um lado temos a chamada globalização ,de outro ceitas(seitas) não sei ao certo como se escreve,que vão contra o casamento afirmando algumas teses anti-casal,não posso dizer se sou contra a favor pois não sei ao certo se essas ceitas(seitas) fazem isso mesmo ou a midia só explana tais conhecimentos afim de ataca-las em algum ponto da história.

    hoje temos de uma forma inegável cursos para casais,curso preparatório antes do casamento os chamados cursos de noivos,temos ainda os curso de namorados mas será que isso é certo?

    em uma disputa judicial o que foi planejado antes (quando não existe um pacto antenupcial) tem valor em um futuro divórcio,em uma futura briga? como mulher a minha opinião é de que o casamento tem tudo para dar certo mas “O CASAMENTO” NÃO QUALQUER CASAMENTO MAS “O CASAMENTO”,ENTENDE?

    GOSTARIA QUE FIZESSE UM POST OU UM ARTIGO SOBRE ISSO

    A DIFERENÇA DO “CASAMENTO” E DO “O CASAMENTO”

    ATENCIOSAMENTE

    AH PQ VOCêS NÃO LANÇAM UM CANAL DE PALESTRAS?
    UMA BOA IDEIA NÉ ?
    ATÉ MAIS

  5. Tbém me sinto assim. Precisando de ficar sem meu companheiro. Junto com a gravidez o namoro e a convivência que tínhamos por alguns dias da semana (qdo eu cansava ou me streasava ia p minha casa) viraram um casamento. Junto com os hormônios, incertezas… E passamos a nós conhecer sem disfarces e muitas coisas intensas vieram à tona. O momento mais intenso de um casal é sem sombra de dúvida a chegada do bebê…

  6. Sua fala tem profundidade, verdade e clareza. Lindo. Grato demais! Um beijo, Xande.

  7. Nena querida, estamos sempre por perto. Sei que você tem proximidade dos grupos, das mulheres, de gente que pode lhe ajudar neste momento. Mas, sem dúvida, os desafios para o casamento são de imensa grandeza. Um beijo e saudades, Xande.

  8. gostei bastane de ver o tema ser debatido desta forma caso tenha interesse visite o meu site .

    também gostaria de completar pedindo apra nunca deixar este projeto de lado ,muitos sites que eu acompanhava hoje já não estão no ar ou mudaram de tema é dificil achar alguns sites “bons sobre o tema”

    só o seu e mais 3

    que inclusive são os que mais até hoje tem acesso especializado “tem que pagar”

  9. Existe salvação para um casamento em crise, sou prova viva disso. Demorei muito tempo para aprender coisas básicas, investi no meu relacionamento e tudo mudou….

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