E então o nosso filho veio como um presente, chegou para nós e nos desarrumou completamente.

Veja o vídeo desse texto com Alexandre Coimbra Amaral AQUI.

O texto de hoje tratará de um tema que está dentro deste grande universo do Puerpério: é o casamento, essa entidade que claudica, que estremece, que fica absolutamente desencontrada.

Em alguns momentos você sente que você está separada do seu cônjuge, que você está separado da sua esposa. O que é isso? Como é que isso acontece?
E por que que isso vem justamente no momento em que vocês estão recebendo o maior presente da vida de vocês?

Por que que isso vem na mesma hora em que a gente é arrebatado com tanta felicidade?
Em que a gente, inclusive, vive, também, inúmeros momentos de conexão com aquela pessoa com quem a gente escolheu criar, gerar um filho.

Por que que isso acontece?

Bom, esse é um tema que faz parte do tabu sobre o puerpério. Porque é inevitável que sempre aconteça, é inevitável que sempre aconteça uma crise no casal, depois do nascimento de um filho.

Primeiro eu vou explicar o que eu quero dizer por crise e depois eu vou explicar por que é inevitável.

Crise é uma reação normal a um evento anormal,um evento extraordinário na vida da pessoa.

Então, um filho é um evento extraordinário que chega balançando com todas as certezas que a tínhamos sobre a vida. Num espaço onde o casal construiu os seus parâmetros de vida, de convivência de um pro outro, chega esse terceiro, pedindo licença, e, às vezes, de uma forma bem enérgica,com choro, com noite mal dormida, com dificuldades de amamentação, com um monte de contratempos no processo de ajuste à chegada dele.

Esse terceiro elemento, ele chega ocupando o tempo e o espaço que o casal dedicava um pro outro. Então, só por isso, simplesmente se pensarmos só nisso nós já temos um motivo pra esse casal se desorganizar, pra esse casal entrar numa outra dimensão, numa outra frequência.

Bom, mas além disso, acontece que os dois se transformam, os dois mudam. Eles não vão ser o mesmo casal, porque eles não vão ser mesmo as mesmas pessoas.

Então, assim como você olha pro seu bebê, querendo entender que ser é aquele que veio pra você, querendo construir intimidade com ele, você vai olhar pra você e por seu parceiro amoroso para descobrir em quem, você e ele ou ela estão se transformando.

Essa é a mágica da história, mas por trás disso tem muito sofrimento, tem muita dor, tem muito desencontro. Porque quebra com o ideal do amor romântico.

A gente tem a impressão, com o amor romântico, de que o “felizes pra sempre” pode se reeditar com a chegada de um filho. Essa é uma das grandes ilusões das pessoas que decidem ter filhos pra segurar um casamento, pra dar uma turbinada na relação, pra acrescentar um elemento novo.

E, aí o grande encontro com o real é perceber que o filho traz dúvidas, dilemas, incompreensões, vontade de ser mais visto.

O homem e a mulher tem vontade de serem mais vistos pelo parceiro.

Os dois se sentem em déficit com o outro. “Eu deveria estar fazendo mais coisas por você”.

Na nossa cultura machista, as mulheres são ensinadas a servirem os seus maridos. Infelizmente a gente ainda tem muitas mulheres que ainda se sentem em débito com seus maridos, porque elas não estão cumprindo uma espécie de obrigação conjugal.

E conjugalidade não é obrigação, é entrega, é vontade, é desejo. E, às vezes, o bebê exaure tanto essa mulher ou esse homem, ue a energia está toda canalizada pra ele e sobra muito pouco.

Sobra muito pouco pra sexualidade, sobra muito pouco pro carinho,sobra muito pouco pra tolerância.

Porque toda a cota de energia, de tolerância, de dedicação estão colocadas nesse bebê.

Aos poucos o casal pode ir se ajustando e é por isso que os casais sobrevivem a esse processo, mas é importante entender que não vai ser da mesma forma.

E quantos puerpérios houver, mais a necessidade de uma reacomodação. Então, é uma morte em vida que o casamento vive nessa circunstância. Porque morre uma fase do casamento pra nascer outra.

Morre um pedaço da vida conjugal.

Muitos casais falam da perda da liberdade, porque o filho traz uma necessidade de rotina, de estruturação de horários. É como se a vida tivesse dado uma encaretada. É como se a nós tivéssemos feito uma virada conservadora.

E junto com essa virada conservadora vem uma readaptação desse casal, que antes poderia, por exemplo, ter curtido muita brincadeira juntos, muita irreverência.

E agora estão ali centrados na adaptação a todo esse novo processo. Então, o pós-parto, não só o pós-parto imediato, mas eu diria que pelo menos o primeiro ano de vida do bebê, é um ano de muita crise no casamento.

É um ano de reencontrar-se com o outro e muitas vezes a gente pode incorrer nessa sensação de que o que é apenas o início de uma transformação pode nos parecer o fim de um casamento e de uma era.

Então, isso pode ajudar a explicar, por exemplo, porque nós temos nos dois últimos sensos, no Brasil, dados estarrecedores de separações conjugais logo depois do nascimento do primeiro filho. Isso pode apontar pra uma dificuldade nossa de esperarmos o tempo da vida, o nosso tempo, de nos readaptarmos ao parceiro.

E, de repente, trazendo crises não nomeadas ou não sentidas, de lá de trás, junto com todo esse período puerperal a relação não aguenta, explode e termina.

O que é uma pena, porque pode ser que esse casal ainda pudesse ter tempo para se reconhecer e se readaptar um ao outro.

Mas um exercício constante é esse de imaginar-se recasando com a mesma pessoa.

O puerpério é só um momento a mais em que você estará se “recasando” com seu parceiro e com sua parceira.

Se você aproveitar esse momento pra entender de que formas você pode ir se “recasando” com essa pessoa, porque você também está se “recasando” com você, isso pode te fazer muito bem, não só pra sua relação conjugal, mas pra tornar mais longevas todas as relações da sua vida.

Porque a gente realmente morre e renasce muitas vezes nessa vida. E o casamento é apenas um dos lugares em que isso acontece. Portanto, não é porque ele é doloroso que ele deva ser evitado. Pelo contrário, é enfrentando isso que a gente aprende a sustentar uma relação que ganha em profundidade com a complexidade desse momento, de ter um bebê dentro de casa.

Por Alexandra Coimbra Amaral, Terapeuta familiar, de casais e de grupos, fundador do Instituto Aripe. É psicólogo do programa “Encontro com Fátima Bernardes” da Rede Globo.

Imagem: @amyphilpphotography

4a Turma Psicologia do Puerpério com Alexandre Coimbra Amaral

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