O filho mais velho e o puerpério

Nossa conversa hoje é o sobre o filho mais velho com a chegada do segundo filho, do irmão. Primeiramente temos que nos colocarmos no lugar dessa criança.

E como coordenar tanta necessidade de cuidado dentro de minha própria casa?

Dados de existência

Nossa conversa hoje é o sobre o filho mais velho com a chegada do segundo filho, do irmão. Isso abre uma reflexão sobre a diferença entre os puerpérios. Mesmo que você tenha dez filhos, você terá dez experiências puerperais diferentes. Primeiramente gostaria de deixar claro que a ordem do nascimento dos filhos é soberana na determinação de muitas características da existência dessas duas crianças.

Sartre dizia que a existência precede a essência. Dessa forma, tem dados da vida que são dados de existência e nós precisamos acatá-los e entender o que trazem para nós. Então, a ordem de nascimento de um filho é um desses dados de existência. O filho primogênito vai ser o único dentro da sua família que vai viver a experiência do cuidado exclusivo, a exclusividade. E esse é um dos valores que trazemos sobre o amor materno, temos a expectativa de que os nossos filhos sintam a exclusividade do nosso amor, que eles sintam que são amados como nenhum outro amor da nossa vida. Essa é uma das carências humanas, das necessidades humanas básicas.

E quando temos essa oportunidade de ofertar tanta exclusividade de afeto e cuidado a um filho, na hora que chega um segundo filho, que já nascerá impossibilitado de viver essa exclusividade, a gente entra em um dilema. Que as vezes pode até ser um dilema ético. Nos indagamos se é possível ficar reparando ou construindo reparações com o segundo filho para que ele se sinta igualmente amado ao irmão mais velho.

O puerpério do filho primogênito

É interessante entender que nessa hora nós queremos fazer uma equiparação do cuidado e da atenção a esses filhos. Muitas vezes antes do segundo filho nascer temos medo e dúvida se vamos conseguir amá-lo da mesma forma. Entretanto, é parte da história do segundo filho entender e aceitar que ele vem nessa posição dentro dessa família. E aceitar que ele terá uma mãe compartilhada. Da mesma forma, o primogênito vai viver as duas fases na vida dele: a fase exclusiva e a fase que ele passa a compartilhar o amor dessa mãe. Por isso, esse momento é também uma grande transição para o primogênito. É o puerpério dele, ele também precisa entender, sentir e elaborar a chegada desse outro irmão que irá retirar dele essa exclusividade.

Imagine o que sente uma criança que deixou de ser exclusiva. Isso é muito forte. Muitas vezes não conseguimos compreender a força visceral dessa sensação para uma criança. Às vezes, é uma criança de dois anos que ainda está puro sentimento e expressão. Não podemos cobrar dela uma maturidade para compreender essa situação. Até porque muitas vezes nem a gente tem. Se é difícil para a mãe lidar com a culpa nesse momento se está fazendo por um ou que fez pelo o outro, imagina para a criança como é lidar com essa energia forte que ele está sentindo de raiva, de medo da perda do amor.

Se colocar no lugar da criança

Primeira coisa que temos que fazer é nos colocarmos no lugar dessa criança. Ela tem o direito de sentir isso, é normal. Quando o seu filho estiver exacerbando essa inconsistência na aceitação desse irmão, ao invés de moralizar a história dizendo “é o seu irmãozinho, você tem que aceitar”, antes de dizer esse texto todo, abrace o seu filho. Diga para ele que você entende e que é normal. Por exemplo, “nossa filho, que difícil né, você não queria que seu irmão tivesse aqui desse jeito, você queria a mamãe só para você, é isso que você queria”.  Vai acalentando o coração dele e fazendo com que ele entenda que você está compreendendo o que ele está sentindo.

Isso não quer dizer que você tenha que ter uma resposta para isso. Essa resposta quem vai encontrar é ele. Mas para ele é muita coisa saber que você consegue compreender e legitimar essas emoções desencontradas que ele está vivendo. Na hora que um irmãozinho chega é muito barulho dentro de uma criança primogênita. Esse barulho pode ser silenciado com afeto e carinho.

Que inclusive pode ser feito pelo pai quando a mãe estiver cuidando do filho menor. Mas a mãe também vai ter que cuidar de algum momento estar só com esse filho mais velho, nem que seja por alguns minutos. Alguns minutos em que você possa entrar em conexão com ele. E ele poder sentir que você dá atenção para as emoções dele, como sempre aconteceu.

Os filhos toleram as nossas falhas

Não é fácil. Vai te causar cansaço. Vai te causar desespero. Às vezes, vai te dar muita raiva. E às vezes vai te dar sensação de que não tem saída. Mas é possível. E os filhos, sobretudo os mais velhos que já tem um pouco mais de maturidade para compreender as coisas, eles conseguem tolerar as nossas falhas e nossa humanidade. Porque é nessa humanidade que eles se constituem. É na hora em que somos imperfeitos que eles conseguem conceber que eles podem ser humanos.

Então, se entregue a isso. Abrace muito o seu filho. Compreenda. Converse com ele. Legitime os sentimentos dele sobre a chegada desse irmão. Vai fazer muito bem a ele e vai fazer muito bem a você. Vai te ajudar a entender que cada filho tem o seu lugar. Que cada filho tem o seu momento de ter a cena elevada. Cada filho tem o momento da sua conexão profunda com você.

Quando os dois estiverem maiores eles já vão estar acostumados com o fato de que você possa estar junto com eles em uma mesma cena, vai ser ainda mais divertido. Mas, sobretudo, para esse primeiro momento a palavra de ordem é empatia. Entrar em conexão com o que ele deva estar sentindo. Ao invés de legislar imediatamente e dizer “você não pode ser assim”. Abrace, sinta! Você vai vê que as coisas vão ficando melhores.

por Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo e terapeuta familiar e de casais.

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7 respostas

  1. Homi, seu vídeo veio como resposta as minhas preces!! Universo fez aparecer na minha timeline rsrs…

    Mais velho com quase 5, bebê com 1 mês e o caos instaurado! Mas o que me confunde mais é que o guri morre de amores pela irmã e age assim com ela. É comigo e com o pai que o bicho pega e isso me confunde. Tenho receio de tentar “adivinhar” o que ele sente e sugestionar, sabe?

    Penso que ele está sentindo raiva da gente por todas as mudanças e pelo amor pela irmã tudo se confunde dentro dele. Mas será que isso é dele ou meu? como saber?

    o turbilhão emocional do puerpério me deixa perdida entre o que é me e o que é dele. se eu tentar por as emoções do pai na conta, piro de vez!! rsrs

    gratidão por tocar no assunto, muito difícil achar conteúdo com o mínimo de empatia.

  2. Meu coração está apertado. Grávida de 37 semanas e tendo como filha mais velha uma pequena de 1 ano e 10 meses. Já percebo mudanças no comportamento dela, muito apegada a mim e bem chorona. Meu medo maior é priorizar a mais velha para tentar amenizar o sofrimento dela com a chegada do novo bebê. Enfim…. estou com coração aberto, sensível e esperando passar por tudo isso de forma tranquila, mas consciente de que tudo pode ser caótico. Obrigada por compartilhar!!!!

  3. Como eu estava precisando ouvir isso. Minha grande preocupação é com a minha mais velha de 5 anos, a irmã tem 5 meses e é bem como no comentário acima. Com a irmã só amores e com os pais revolta, raiva. Mas eu entendo que é o jeito que ela encontrou para externalizar os sentimentos. Nem sempre eu tenho a sabedoria para lidar da melhor forma, mas vendo esse vídeo enxerguei uma luz. Obrigada!

  4. Parabéns Ale! Perfeitas e verdadeiras colocações! Meu segundo puerpério foi a prova mais difícil que passei até hj… E acredito que ele começou logo que decidimos , juntos, o nome da caçula, ainda com cerca de 12 semanas… A partir daí tudo começou a mudar, até o parto, meu deus com quem dormira minha primogênita, na noite Q estaremos no hospital? Só em pensar minha cabeça dói, Rs. Acho Q afago, bj, abraço e sorriso faz esse período passar mais rápido… Parabenizo minha Maria por ter sido aprovada com louvor nesse primeiro desafio da sua vida! Bjs

  5. Alexandre, chorando aqui!!! A chegada da minha caçula foi tão difícil para minha filha mais velha… Eu tive muita dificuldade de acolher esse sofrimento da mais velha, pois eu estava embebida pela emoção de ter conseguido parir, de ter aquela bebê linda nos braços que representava a realização de um sonho (a primeira eu tive uma cesariana que não queria). Foi tão difícil! Mas foi na convivência diária e no cuidado, no carinho, na empatia e na recordação dos momentos em que ela era bebê (ela me perguntava muito sobre como era quando ela tinha nascido) é que conseguimos reatar a conexão. Gratidão pelo compartir!

  6. Ótimo texto, obrigado! Peguei férias pra poder acompanhar o puerpério do primogênito e mesmo assim me peguei perdendo a paciência com ele ontem. Enfim, depois me desculpei. Mais atenção e bola pra frente.

    Se me permite uma correção: na última frase é “você vai ver” e não “você vai vê”.

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