“Uma mãe senta para amamentar sua filha em um banco desconfortável, em frente à farmácia de um shopping que não tem espaço adequado para amamentação. Discreta, levanta a blusa, e a bebê mama feliz. As duas olham nos olhos uma da outra. Estão felizes, é bonito de ver. Uma desconhecida se aproxima, senta ao lado e começa a conversar com a mãe, que está exausta e com o sono atrasado desde o ano passado.

– Que bebê lindo, como é o nome dele?

– É uma menina. O nome dela é Maria.

– Menina? E cadê o brinco? Tem que colocar brinco nela, mãezinha!

– É lei? Não sabia.

– É pra ela ficar mais bonita.

– Ela já é linda, não precisa de brinco agora, não.

– E qual a idade dela?

– Um ano.

– E ainda mama?

– Graças a Deus.

– E ainda sai leite?

– Não, sai guaraná – responde baixinho.

– Como?

– Sai leite sim, senhora. Muito leite.

– Mas não presta mais pra nada, depois dos seis meses vira água.

A mãe pensa em explicar que o leite nunca perde o valor nutricional, que a Organização Mundial de Saúde indica a amamentação até dois anos ou mais, pensa em falar de todos os benefícios comprovados pela medicina, mas está cansada demais pra isso.

Apenas faz silêncio e decide voltar a olhar para a Maria, esperando que a mulher vá embora. Não funciona, ela continua lá. E agora decidiu falar direto com a criança, fazendo vozinha de bebê:

– Você não tem vergonha não, Maria? Desse tamanho mamando?

– Por que ela deveria ter vergonha, senhora? O que tem de errado?

– É feio, mãezinha, chupando o peito da mãe grande desse jeito. Isso aí não presta pra nada mais não, a bichinha tem que tomar é mingau. Eu tenho experiência, minha filha. Criei quatro, nenhum mamou, são todos saudáveis, graças a Deus.

– Foi fácil criar seus filhos, senhora?

– Que nada, foi uma luta. Só Deus sabe o que eu passei.

– A senhora fez o melhor que pode, não foi?

– Fiz o melhor que pude e o que não pude. Eu dei minha vida por eles.

– Eu também estou fazendo o melhor que eu posso, senhora. Só que o meu jeito é diferente do seu.

– Eu só quis ajudar, minha filha. Não precisa se ofender.

A mãe arrumou a roupa, pegou Maria, levantou e saiu, chorando de revolta e cansaço.

Estava exausta de ter de explicar o valor do leite materno, de falar da OMS, de se defender tantas vezes. O peito alheio incomoda, perturba, e toda mãe que amamenta já sofreu olhares de reprovação e perguntas desnecessárias. Criticar uma mulher enquanto o bebê mama é uma forma de violência.

A balconista da farmácia, que assistiu à cena toda, correu atrás da mãe e ofereceu uma garrafinha de água. Segurou a bebê nos braços, brincou, cantou e fez Maria soltar gargalhadas, mostrando a graça dos dentinhos miúdos. A mãe terminou de beber a água, respirou fundo, pegou Maria-sorriso de volta, agradeceu comovida e saiu. De alma leve.

A balconista da farmácia também queria ajudar. A diferença é que ela conseguiu.” 💜

Texto de Socorro Aciolli
Fotografia de Melina Nastazia
Via Camila Piveta

4a Turma Psicologia do Puerpério com Alexandre Coimbra Amaral

4 Comentários
  1. Halyne PEREIRA Dantas 4 dias atrás

    Ah! Eu ouvi muitos comentários como esse é estava muito cansada como essa mãe. Minha resposta era um sorriso amarelo, meu filho nunca teve vergonha de mamar e seguimos juntos até os 5 anos! Fiz o meu melhor. Faça cada um o seu.

  2. Giselle Amaral Mendoza 5 dias atrás

    Muito bom!

  3. Fernanda Luz 5 dias atrás

    Nossa, ontem mesmo passei algo parecido, mas quem se meteu a dizer que meu filho de 1ano e 10 meses não deveria mais mamar foi um ortopedista, provavelmente incomodado de ter que mudar o medicamento que ia me receitar pelo fato de eu ainda amamentar. E esse senhor, dito médico, ainda disse que leite só serve até 8 meses, no máximo. Também tive vontade de citar a OMS, mas achei que não valia o estresse. Respondi apenas educadamente que o médico pediatra dele nunca foi contra, e que enquanto for bom pra nós, seguiremos com esse carinho. Mas a vontade era mandar ele a merda.

  4. Chimena Veimrober 1 semana atrás

    Perfeito! Mesmo na contramão, insisto neste pensamento de amor que, para mim, parece a forma mais “correta” (e obvia) de criar um filho.

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