Olhar para a infância

Olhar para a infância, independentemente da idade que tenhamos, ou de quantas vezes já o fizemos, é sempre uma oportunidade de reolhar e buscar movimentos espontâneos em direção ao que foi e ao que será.
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“Pode parar com essa ideia de me fazer olhar para trás! O que passou já passou! Foi como foi e pronto. Não adianta nada chorar pelo leite derramado. Eu tenho que olhar para frente, sem drama. Essa criança interior não me interessa. Não entendo o que ela teria para me acrescentar a essa altura da vida”. 

Essas foram afirmações que ouvi de uma paciente, logo na primeira sessão, como uma advertência que tentava colocar um limite claro em minha forma de atuar.

Ela deveria ter por volta de 50 anos de idade, queixava-se dos relacionamentos com o marido e com os dois filhos que, jovens adultos, lançavam voos bem sucedidos em relação a suas carreiras e se encontravam literalmente distantes. O casamento de longa data era relatado como frio, como se faltasse algo que os conectasse, já que a rotina com os filhos não era mais o centro da relação. À primeira vista, parecia o que a literatura chama de síndrome do ninho vazio. Mas, minha escuta investigativa sabia que esse vazio era muito anterior à chegada desses filhos – que dirá à partida deles; que estar num relacionamento com alguém que não lhe permitia ser enxergada e reconhecida de modo mais profundo também deveria ser algo antigo, com origens longínquas lá na tal infância que ela não gostaria de acessar.  

Ela já tinha feito longos anos de análise e, apesar de sentir que também não era bem compreendida e acolhida em suas colocações, permanecia. Como uma espécie de padrão relacional, também acontecia ali na relação com o terapeuta,  Parecia que ela estava ali, à espera de ser correspondida, como se fosse carente — e isso não era coisa de adulto! Precisa ser ultrapassado. Uma ideia que gerava ainda mais senso de inadequação e desconexão consigo mesmo e com os outros.

Iniciava psicoterapia comigo após receber indicação de uma amiga que dizia ter feito uma transformação profunda. Decerto a amiga já tinha falado sobre a minha abordagem e sobre como reconhecia a importância de olhar para a infância nessa transformação. Mas, sua fala no primeiro encontro era de certo desprezo, um ar prepotente e controlador que parecia querer ditar como eu deveria trabalhar.

Começamos mal, não é? Conseguimos construir esse vínculo que é a chave do processo terapêutico? O que o meu olhar diria para ela a cada sessão? 

É a partir desse ponto que o meu conhecimento trazido pela Teoria do Apego e pelos longos anos de trabalho com tantas Crianças Interiores me fez desenvolver uma empatia tremenda por quem chega ao meu encontro com modelos tão arraigados de se relacionar, e a minha resposta foi:

“Nossa! Entendo que deva ter sido difícil sair de uma relação tão longa com seu terapeuta para começar tudo novamente, um novo vínculo, que vai levar todo um tempo para se construir. E deve ser chato ter que contar toda história novamente de tantos anos. Prometo que vou fazer isso de uma forma dinâmica, mas queria te dizer que a sua infância importa sim. Ela nunca ficou lá atrás. Ela continua aqui, se fazendo presente na forma como olhamos para nós mesmos, para os outros e para o mundo. Ir adiante, sem olhar para trás, é como guiar um carro em uma autoestrada sem conseguir limpar os parabrisas, acender os faróis, aumentar a potência do nosso motor, reabastecer nosso tanque com combustível de qualidade, enfim: usar os recursos que podem te ajudar a viver melhor nessa jornada rumo a um futuro mais alinhado com aquilo que realmente importa para você”. 

Olhar para a infância, independentemente da idade que tenhamos, ou de quantas vezes já o fizemos, é sempre uma oportunidade de reolhar e buscar movimentos espontâneos em direção ao que foi e ao que será.

Dar a própria versão aos fatos pode ser esclarecedor, libertador. Acolher a criança que fomos pode nos dar a chance de nascer de forma diferente em nossos próprios braços, reconhecendo necessidades, cuidando de feridas antigas e resgatando potenciais esquecidos nunca antes vistos ou valorizados. 

A fala da minha paciente não desvalorizava a mim ou a minha abordagem — ela estava ali depositando toda sua esperança em mim, no processo, e a sua fala era desconsiderada de si própria, de sua importância ou sabedoria construída diante de todo o processo de crescer. E isso já me falava bastante sobre como deveriam ter se construído relações importantes na sua vida. 

Outro dia, encerrando um grupo terapêutico focado em acessar a criança interior, uma das participantes fez um poema que me emocionou profundamente e que traduziu a importância desse novo olhar sobre nossa infância e é com ele que quero encerrar esse relato.

BEM-TE-VI

VER, OLHAR, CONTEMPLAR, OBSERVAR

VER COM OS OLHOS MAS TAMBÉM COM O CORAÇÃO

VER COM A RAZÃO SEM ESQUECER DA MISERICÓRDIA

COMO É BOM VER

COMO É MUITO BOM VER-SE

COMO É BOM DEMAIS VER-SE BEM,

COM SEUS DONS E DIFICULDADES,

FAZENDO DOS DESVALIMENTOS UMA ESCOLA DE APRENDIZAGEM

COMO FAZ BEM SE VER NA SUA INTEGRALIDADE

COM TUDO QUE É, COM TUDO QUE TEM, COM TUDO QUE PODE SER E TER

SER AMIGO, TER AMIGO

SER AMOR, TER E OFERTAR AMOR

SER PERDÃO, TER E OFERTAR PERDÃO

BEM TE VER NA SUA HISTÓRIA, 

DESCOBRINDO NELA AS PEGADAS DO SAGRADO

BEM TE VER NO SEU INTERIOR,

E NELE A FONTE DA CORAGEM DE SEMPRE RECOMEÇAR

BEM TE VER É NATAL, É NASCIMENTO, É ENCONTRO

BEM TE VER É NAVEGAR PARA AS ÁGUAS MAIS PROFUNDAS

E NELA DESCOBRIR E DESCOBRIR-SE 

QUE O VENTO QUE NOS LEVA PARA A FRENTE

É O AMOR

por Rachel Savir, psicóloga CRP 11/04348,  Rachel está no Instituto Aripe preparando Curso de Teoria do Apego.

O curso “Teoria do Apego” foi desenhado para dar auxílio e instrumentalização a pessoas que se interessem pela especialização na Teoria do Apego e pela temática das relações interpessoais e vinculação humana.

O formato é acessível para qualquer pessoa, incluindo profissionais da área da Psicologia, que se interessem por esta temática. Em todos os nossos cursos, privilegiamos a comunicação aberta, com conceitos bem embasados teoricamente, sem renunciar à possibilidade de entendimento e diálogo.

O curso será ao vivo, em aulas online participativas, onde os alunos conversam com o professor a todo momento, esclarecendo dúvidas, trazendo histórias que ilustram conceitos, abrindo novas frentes de discussão, interpretação e entendimento.

Conheça mais sobre o curso da Teoria do Apego em: https://aripe.com.br/teoria-apego/

O Instituto ARIPE é uma plataforma de cursos online de aperfeiçoamento e aprofundamento profissional de psicologia, cursos complementares e educação continuada a distância para psicólogas (EAD), psicanalistas, terapeutas individuais, psicoterapeutas, psicopedagogas e interessados pelos assuntos.

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