Pa ou Maternidade: um amor cheio de condições

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Aí você recebe seu filho, no masculino, feminino ou plural, que chegou aos seus braços depois de uma gestação natural ou adotiva. Ele traz um pedido incansável de amor e dedicação, muito maiores do que você se imaginava ser capaz.

Filhão rima com exaustão,

sobretudo nos primeiros anos em que ele e você estão criando intimidade, conhecendo como um e outro conseguem levar os desafios da vida.

Antes de ser mãe ou pai, a maternidade ou paternidade eram um conceito abstrato, que você tratava como a mais previsível das concretudes. Você fez uma carta de intenções do melhor de si para o melhor presente da sua existência. Prometeu ser muito melhor que seus pais foram para você. A chegada de um filho nos dá a sensação de podermos renascer do zero, fazendo um ctrl alt del de nossas limitações para assim podermos ser e agir como nossos ideais sempre tiveram a ousadia de sonhar.

Mas aí os dias, estes cruéis senhores do tempo, vão dando a real, fazendo desvanecer as ilusões gravídicas junto com as secreções, excreções, gotas de leite e lágrimas que são a verdade inconveniente do cotidiano com um bebê.

Nossa dor é perceber, que apesar de termos sonhado tudo o que sonhamos, somos tão falíveis como nossos pais.

Agora conseguimos entender a vulnerabilidade deles, a falta de certezas absolutas, a dúvida sobre como agir com um filho que ainda é (e sempre será) um estranho íntimo. Nosso destino, como cuidadores e educadores, é ter como única garantia a existência de falhas que nos deixem expostos como reis nus. Somos incapazes de cumprir as promessas de perfeição e controle, porque o olhar para a vida, para o mundo e para o filho sempre será limitado e parcial, e nossas teorias sobre como agir com eles serão sempre cobertores curtos que imaginávamos ser de tamanho king.

Sentimos muito mais do que amor por eles, é verdade. Esta relação nos faz sentir medo, saudade, tristeza, decepção, raiva, desencanto. E também alegria, orgulho, vaidade, euforia. E também vazio, dúvida, angústia, ambivalência e solidão. Não existe nenhuma emoção humana que fique de fora da história com um filho. Nosso amor nunca poderá ser incondicional. Ele será condicionado às nossas virtudes e vícios, a nossa luz sombreada, aos nossos humores instáveis e às certezas frágeis que nos habitarem a cada tempo. O amor pelos filhos é carregado de condições para existir – como um Instagram às avessas, em que não conseguimos escolher o filtro para sairmos bem na foto, e que escancara nossas rugas e linhas de expressão da alma.

O que nos resta, então, a partir do encontro constrangedor com nossos erros? Resta aprender a reparar a relação que não merece ser perfeita.

Nossos filhos merecem pais humanamente falhos, que também os ensinem a voltar atrás, a rever posturas, a mirar na lua para acertar nas estrelas.

Nossos filhos merecem amar gente de carne e osso, para que no futuro se sintam capazes de adultescer com alguma tranquilidade para dar conta, imperfeitamente, de uma vida carregada de papéis, histórias vividas e planos de vir-a-ser.

E assim, na conexão possível da vida real, vamos desafiando os ideais e os mitos que construímos sobre nós e sobre eles. Podemos até gastar a vida inteira para vermos um ao outro com nitidez e fidedignidade, mas ainda assim a aventura terá válido a pena. E quem sabe, então, já estejamos com os netos aportando na fila da existência, à espera de nossos olhares cheios de projeções e fantasias, deixando-nos a certeza de que somos incorrigíveis seres de amor, com as melhores condições possíveis para existirmos para além e aquém de nossas cicatrizes.

por Alexandre Coimbra Amaral originalmente para o Portal Lunetas.

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Ilustração: Marion Fayolle