Por Alexandre Coimbra Amaral

A expressão “dar à luz” definitivamente não representa a experiência do parto e do puerpério. Ela simboliza apenas uma parte da potência do momento. É uma forma de narrar o nascimento humano que não faz jus a todas as emoções humanas ali contidas. Vivemos uma cultura acostumada a oprimir alguns sentimentos em benefício de outros, enturvecendo a visão para sentir apenas as cores mais quentes, mais solares, mais coerentes com o significado cultural de bênção, tão abraçado pela tradição judaico-cristã que alicerça o pensamento ocidental.

A gravidez é um grande casulo existencial, uma preparação para o grande momento do nascimento de um filho e o renascimento da mulher e da família em torno dela. [Este tema será desenvolvido no documentário “O Renascimento do Parto 2”, do qual tenho a honra de participar, cuja estreia está prevista para o último trimestre deste ano. Veja aqui o trailler, e vá se conectando à beleza que Eduardo Chauvet e equipe estão nos preparando]. Não nos restam dúvidas de que este período perinatal, compreendido entre a gravidez e os primeiros anos do bebê, pode ser vivido como um marco de abertura da consciência de si e do mundo. Um filho nasce, não somente para satisfazer nossos desejos narcísicos de reprodução ou transcendência, mas aos poucos vamos nos dando conta da sua função inequívoca de conduzir-nos a uma quantidade de perguntas sem respostas óbvias, a tantos silêncios, a tantos vazios, que não prevíamos que fizesse parte de nossa trajetória. Esperávamos uma redenção, um encontro que nos entregasse certezas, e ao final nos tornamos reticências diante daquele ser que nos pede ações imediatas, que nos exige presença, que nos convoca a um abismo de dúvidas. A todo este momento existencial damos o nome de puerpério, que para nós é muito mais do que pós-parto. É o período que dura certamente mais que meses, que podem ser anos inteiros de nossas vidas, já que um renascimento da identidade não se faz em uma quarentena.

Há muita luz, seguramente. Por isso a primeira hora com o bebê, após o parto, nós chamamos de “hora dourada”, porque é o momento do apaixonamento visceral entre a mãe e o seu filho, sem as interferências projetivas do neocórtex que tantas ilusões soube criar durante a gestação. O amor que vamos construir com aquele ser é igualmente inesquecível, progressivo; arrebatador sim, mas também cercado de muitas durezas. O processo de vinculação com um bebê é um retorno ao mais que humano em nós, como diria Caetano Veloso. Ao olharmos para nossos bebês, estamos olhando para nós mesmos naquela condição, viajando no tempo e no espaço interno de nossos inconscientes, de volta à vulnerabilidade essencial dos primeiros dias, meses, colos, mamadas, choros, cólicas e sorrisos. Nossos filhos nos espelham, nos remetem às nossas mães, àquelas que tanto criticamos e que agora temos o privilégio de sentir o vazio que elas sentiram ao receber-nos em seus braços. Não há certezas, não há receitas diante de um bebê que é sempre único e diferente de nossos desejos e projeções. Precisamos fazer vários lutos para sermos mães e pais deste bebê. Temos que abandonar as imagens, os sonhos, os projetos que envolviam uma pessoa imaginária, para deixar que o vínculo fusional com o bebê real vá nos mostrando quem de fato recebemos para conduzir durante o resto de nossas vidas.

O caminhar se faz caminhando, disse o grande Mestre Humberto Maturana, biólogo chileno especializado em encantar a ciência com suas ideias sobre o caminho amoroso que é essência de nossa existência. Enquanto vamos construindo a nossa história de amor e tantos outros sentimentos com nosso filho, vamos entendendo quem somos a partir dali. O puerpério é um grande travessia, uma jornada de autoconhecimento mediada pelo encontro com tudo o que aquele bebê mobiliza em nós. É um caminho sem volta, à medida em que decidirmos construir a fusão primordial nos dois primeiros anos com este novo ser. Fusionar-se com o bebê é entregar-lhe o que ele precisa para muito mais do que sobreviver; é dar-lhe sentido de existência, segurança afetiva e identidade primária. Mas isto nos custa muito. Muito mais do que jamais imaginávamos. É um mergulho inédito para muitas mulheres, e por isso mesmo de rara beleza. Desta fusão emerge uma nova visão de mundo. O filho depois vai construir a sua jornada da alma, irá para o mundo e voltará sempre, porque a relação com a mãe é mesmo esta mistura entre fusão e separação, tudo ao mesmo tempo agora. E nós ficamos ali, sempre um gerúndio de nós mesmos, sejamos nós mães, pais, irmãos, avós… todos entramos neste casulo existencial e de lá podemos sair mais despertos, mais inquietos, mais vivos. Se nos dispusermos a ser como as ostras, que para produzirem pérolas precisam viver a introspecção da dor, com a confiança de que poderemos fazer desta dor uma ponte para uma redefinição de quem somos.

O puerpério é o avesso do que nos contaram que poderia ser. Estamos preparados, sim, para entrarmos no avesso de nós, para sermos revirados em nossas almas. Antes de termos um filho, somos humanos que costuram o tempo apesar e além das dores que somos obrigados a viver. Estas costuras ficam ao avesso depois do bebê. Ele, tão puro, nos revela, nos descabela, nos retorna a quem fomos. E, assim, podemos ser ainda mais autores de nossas histórias, de nossos caminhos, daquilo que costumamos chamar de vida.

Tags:

Dance com seu Bebê em Casa – Dance Mãe e Bebê com Ana Zanesco

0 Comentários

Envie uma Resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

CONTATO

Para nós é importante saber como você está se sentindo com as informações que estamos compartilhando. Você pode mandar uma mensagem falando de que forma esse conteúdo lhe tocou.

Enviando

©2020 Instituto Aripe - pós Parto e Puerpério Desenvolvido por V12 Brasil Marketing Digital

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?