Puerpério: Por que este segredo?

Muitas mulheres no puerpério se encontram com o estranhamento de nunca terem participado de conversas, com outras mulheres da família ou das redes de amigas, que lhe antecipassem esta experiência tão marcante. O puerpério é um tabu em nossa cultura? O que constrói este segredo?

Por que não me contaram nada disso? Por que que esse segredo em todos os lugares do que eu estou vivendo? Será que sou só eu que estou vivendo isso?

Vamos falar do puerpério dentro desse grande tema o nosso assunto é o segredo do puerpério, mas afinal de contas sou só eu que vivo tudo isso; essas emoções todas desencontradas; esse turbilhão de sensações ao mesmo tempo; enquanto eu deveria estar somente celebrando a bênção da chegada do meu filho.

Por que é que nenhuma mulher me disse que esse período é tão tormentoso? Por que esse período é tão sombrio? Essa capacidade que tem de revirar por dentro? Por que se faz esse segredo sobre isso? Sou só eu que vivo isso?

Então esse é um tema muito importante para conversarmos, o puerpério não é exatamente só um segredo; muitas mulheres vivem isso, viveram o puerpério como você está vivendo em décadas anteriores, mas sem poder se expressar… as conquistas da identidade feminina dos anos 60 pra cá incluem a possibilidade de expressar as suas emoções. A mulher do século passado ainda tinha reservado pouco espaço para poder se conectar com que ela estava sentindo, sobretudo, quando fosse um pensamento, um sentimento mais ambivalente e colocar para fora.

Puerpério nas gerações passadas

Provavelmente a sua mãe e a sua avó foram criadas da seguinte forma: minha filha a vida, é isso mesmo; não se preocupe; siga o seu rumo; faça o que é necessário e é para isso que você nasceu mulher; no entanto;  hoje o contexto é absolutamente diferente; você não nasceu mulher você está se tornando mulher, como diz a Simone de Beauvoir; a maternidade é mais uma das dimensões em que você está se descobrindo mulher; então você se permite mais perguntas do que a sua mãe; do que a sua avó se permitiram.

A mulher de hoje tem mais espaço interno para construir essas lacunas de sentido; para deixar que a vida lhe traga esses silêncios para preencher com mais angústia; com mais dúvidas e portanto com mais abertura de consciência. Então é muito comum que as mulheres de hoje cheguem para as suas mães e perguntem para ela; se quando teve filho foi assim daquele jeito; sentindo essas coisas todas e a mãe muitas vezes desconcerta essa jovem mãe falando o seguinte: ah minha filha, não foi isso; não tive; eu não senti isso tudo você está sentindo não; foi mais tranquilo na minha época.

Nesta cena, há um desencontro geracional entre essas duas mulheres. Porque tudo que essa jovem mãe queria era ser compreendida pela sua mãe; que pode compreender coisas fisiológicas do tipo: dói para amamentar; cansa não dormir; é muito exaustivo mesmo, minha filha, mas é assim mesmo, não se preocupe, tá tudo bem. 

Desfolhamento da Alma Feminina

No entanto, estamos falando sobretudo da parte emocional, então para isso; pode ser que tenha operado um grande recalque no coração e na cabeça da sua mãe, agora avó; ou seja, talvez ela tenha se esquecido sobre essas emoções todas que ela viveu, porque ela não teve disponibilidade interna por uma falta de permissão externa do mundo, ela não pode colocar essas coisas pra fora; então quando não temos liberdade para expressar o que sentimos, normalmente depositamos essas emoções num lugar muito escondido.

Quando deixamos lá, como se elas não tivessem existido, mas elas existiram, pode ser que elas não tenham existido da mesma forma, porque a época história era outra; as pressões sobre ela eram outras muito diferentes; mas existe algo do feminino que é transcultural e que é transversal à época histórica, o que nós estamos falando é desse desfolhamento da alma feminina.

E quem sou eu agora?

Nós estamos falando dessa capacidade; que esse período tem de fazer com que a mulher se veja completamente descabelada por dentro; que ela possa se ver desencontrada com a sua imagem no espelho; ela se olha no espelho e fala: essa não sou eu, e quem está olhando pra mim, aqui neste espelho, não é a mulher que eu estava acostumada a ver. E quem sou eu agora?

Este segredo

Então o segredo que ninguém te contou é: “sim, todo mundo vive isso, não é depressão pós parto; esse é um processo profundo de enlutamento, da perda de um pedaço da sua identidade e de aquisição de uma nova identidade; que passa pela fusão com seu filho; pelo encontro com esse ser que está despertando esse amor gigantesco; mas que junto com esse amor vem uma série de emoções que você não esperava viver.

O mundo lá fora só permite que você expresse o amor e o cansaço; não permite que você expressa a raiva; que expresse o medo; não permite que seja expressado uma pergunta tão verdadeira como: será que eu queria isso mesmo pra minha vida? Será que é isso o meu projeto de vida? Será que eu, depois que eu fiz esse filho junto com o meu companheiro junto com a minha companheira, depois que eu adotei essa criança,  será que era isso mesmo que eu queria viver?

Essas perguntas desconcertam, e a cultura não tem espaço para escutá-las; mas nós estamos aqui para escutar e dizer: “sim, acontece sim, é verdadeiro” e pode ser que entre você e a sua mãe e as outras ancestrais da sua família; possa acontecer o encontro reparatório lindo; quando a partir do seu puerpério vivido nessa intensidade que você está se dando a liberdade de viver; elas possam reencontrar-se com as perguntas que elas não tiveram condição de fazer sobre si mesmas. Nesse momento, pode ser que surjam essas perguntas agora 30 anos depois; porque elas, em algum momento, possam se reencontrar consigo mesmo e dizer: “minha filha, agora vendo você; sentindo você; eu estou me lembrando que eu senti outras coisas”; por isso é que estamos chamando isso de muito mais do que um segredo; é uma falta de liberdade para se expressar.

Liberdade para se expressar

Então a liberdade que você se der pra expressar esse momento; pode abrir portais nas relações com as outras mulheres da sua família. Então, mais um motivo pra esse mergulho puerperal ser uma viagem maravilhosa envolta de todas as sensações que o bebê traz de novo para você e para sua família; para a sua relação com sua mãe.

Seja muito bem-vinda; esse período é difícil; é duro; mas também é mágico mas também promove um reencontro mesmo que talvez você nunca antes tenha experimentado; então mergulha nisso.

por Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo e terapeuta familiar e de casais.

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2 respostas

  1. Eu gostaria muito de te agradecer Alexandre por todos os seus vídeos sobre puerpério. E como se vc estivesse constantemente lendo o Q tenho passado e trazido uma paz pra eu entender essa fase e principalmente saber Q outras pessoas estão vivendo essas coisas tb. Que não sou uma pessoa ruim por passar por esse momentos! Muito obrigada! Enfim encontrei uma tranquilidade por sentir tudo Q sinto nessa fase.

  2. Gente!!!! Como alguém pode falar o q vc sente sem te conhecer?
    Super identificada.
    Mas as mulheres atuais tb sentem dificuldade de expor. Infelizmente…

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