Muitas mulheres no puerpério se encontram com o estranhamento de nunca terem participado de conversas, com outras mulheres da família ou das redes de amigas, que lhe antecipassem esta experiência tão marcante.

O puerpério é um tabu em nossa cultura?
O que constrói este segredo?

Vamos falar disto abertamente, porque todo segredo é a porta aberta para sentimentos de culpa por viver cenas aparentemente inadequadas?

Mas por que não me contaram nada disso?
Por que que esse segredo em todos os lugares do que eu estou vivendo?
Será que sou só eu que estou vivendo isso?

Esse texto trará como tema o Segredo do Puerpério, dentro desse grande Tema que é o pós-parto/puerpério.

Mas afinal de contas sou só eu que vivo tudo isso? Essas emoções todas desencontradas?
Esse turbilhão de sensações ao mesmo tempo, enquanto eu
deveria estar somente celebrando a bênção da chegada do meu filho?

Por que é que nenhuma mulher me disse que esse período é tão tormentoso? Por que esse período é tão sombrio? Por que ele tem essa capacidade de revirar por dentro e por que se faz esse segredo sobre isso? Sou só eu que vivo isso?

Todas essas perguntas mostram que é um tema muito importante para fazermos uma reflexão.
Eu quero começar dizendo o seguinte: não é exatamente só um segredo, muitas mulheres vivem ou viveram o puerpério como você está vivendo, há décadas sem poder se expressar! Uma das conquistas da identidade feminina mais recentes incluem a possibilidade das mulheres expressarem as as suas emoções, ou seja, para a mulher do século passado ainda era reservado pouco espaço para ela poder se conectar com o que ela estava sentindo, sobretudo um pensamento ou um sentimento mais ambivalente; e muito menos colocar para fora; então provavelmente a sua mãe e/ou sua avó foram criadas da seguinte forma:
– Minha filha a vida é isso mesmo, não se preocupe… siga o seu rumo e faça o que é necessário e é para isso que você nasceu mulher.

E hoje o contexto é absolutamente diferente, você não nasceu mulher, você está se tornando mulher como diz Simone de Beauvoir. A maternidade é mais uma das dimensões em que você está se descobrindo mulher, portanto você se permite fazer mais perguntas do que a sua mãe, do que a sua avó se permitiram; você tem mais espaço interno para construir essas lacunas de sentido, para deixar que a vida vá te deixando entrar nesses silêncios pra você preencher com mais angústia, com mais dúvidas e portanto com mais abertura de consciência.

É muito comum que as mulheres hoje cheguem para as mães e pergunte: mãe quando você me teve foi assim? Você sentiu essas coisas todas? E a mãe muitas vezes desconcerta essa jovem mãe:
– ah minha filha, não foi muito…não tive isso tudo que você está sentindo não, foi mais tranquilo na minha época, eu não sei porque você sente tudo isso.

Nessa cena, então, acontece um desencontro geracional entre essas duas mulheres, porque tudo que essa jovem mãe queria era ser compreendido pela sua própria mãe, que pode compreender coisas fisiológicas como a dor para amamentar, o cansaço por não dormir:
– Pois é muito exaustivo mesmo minha filha, mas é assim mesmo, não se preocupe tá tudo bem!

Mas a mulher quer falar com a mãe sobretudo da parte emocional, então para isso pode ser que se tenha operado ali um grande recalque no coração e na cabeça da sua mãe (agora avó) ou seja, ela tenha se esquecido sobre essas emoções todas que ela viveu, porque ela não teve disponibilidade interna, por uma falta de permissão externa do mundo, ela, mãe da mãe, não pode colocar essas emoções e pensamentos para fora. Então quando a gente não tem liberdade para se expressar o o que sente normalmente essas emoções ficam depositadas num lugar muito escondido da gente e então deixa lá como se elas não tivessem existido. Mas elas existiram, pode ser que elas não tenham existido da mesma forma, porque na época a história era outra, as pressões sobre ela eram outras muito diferentes, mas existe algo do feminino que é transcultural e que é transversal à época histórica.

E o que nós estamos falando aqui do desfolhamento da alma feminina, nós estamos falando dessa capacidade que esse período tem de fazer com que a mulher se veja completamente descabelada por dentro, que você possa se ver desencontrada com a sua imagem no espelho:
– Você se olha no espelho e fala essa não sou! Eu é quem estou olhando pra mim aqui neste espelho, mas não é a mulher que eu estava acostumada a ver e quem sou eu agora?

Então, o segredo que ninguém lhe contou é, sim, todo mundo vive isso e não é depressão pós-parto, isso é um processo profundo de enlutamento, de perda de um pedaço da sua identidade e de aquisição de uma nova identidade, que passa pela fusão com seu filh@, que passa pelo encontro com esse ser que está despertando esse amor gigantesco dentro de você; mas que junto com esse amor está vindo também uma série de emoções que você não esperava viver.

O mundo lá fora só permite que você expresse o amor e o cansaço; não permite que você expresse a raiva, não permite que você expresse o medo, não permite que você expresse uma pergunta que pode ser tão legítima como:
– Será que eu queria isso mesmo pra minha vida? Será que é isso o meu projeto de vida? Eu depois eu fiz esse filho, depois que eu adotei essa criança, eu me pergunto será que era isso mesmo que eu queria viver?

Essas perguntas desconcertam e a cultura não tem espaço para escutá-las, mas nós estamos aqui para escutar e dizer ‘Sim acontece sim! É verdadeiro” e pode ser que entre você e a sua mãe e/ou as outras ancestrais da sua família aconteça um encontro reparatório lindo.

Quando a partir do seu puerpério, vivido nessa intensidade que você está se permitindo viver, elas (mãe, avó) possam reencontrar-se com as perguntas que elas não tiveram condição de fazer sobre si mesmas. Pode ser que surjam essas perguntas 30 anos depois, porque elas em algum momento podem se reencontrar consigo mesmas e dizerem:
– Minha filha agora vendo você sentindo, eu estou me lembrando que eu senti.

Por isso é que eu estou chamando isso de muito mais do que um segredo: é uma falta de liberdade para se expressar, então a liberdade que você se dá para expressar esse momento pode abrir portais nas relações com as outras mulheres da sua família, por isso, mais um motivo para esse “mergulho puerperal” ser uma viagem maravilhosa em volta de todas as sensações que o bebê traz “do novo” para você, para sua família e para a sua relação com sua mãe.

Seja muito bem-vinda! Esse período é difícil, é duro, mas também é mágico, mas também com potencialidade de promover um reencontro com você mesma, como nunca antes você experimentou, portanto mergulha nisso! Seja bem-vinda a você mesma.

Assista o vídeo desse texto AQUI!

Por Alexandra Coimbra Amaral, Terapeuta familiar, de casais e de grupos, fundador do Instituto Aripe. É psicólogo do programa “Encontro com Fátima Bernardes” da Rede Globo.

Imagem: @abbychanelbrith

4a Turma Psicologia do Puerpério com Alexandre Coimbra Amaral

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