por Aline Cichetto – Mãe da Maria e da Luara

Ser mãe é estar no lugar mais contraditório deste mundo, já diz o conhecido ditado que une padecimento ao Paraíso. Viver isso na carne, durante o puerpério, é andar numa montanha russa emocional, permanentemente.

Acordar com crise de choro pelo motivo mais insignificante, vivendo a tristeza dramática dos que não dormem. E ao mesmo tempo ser a pessoa mais realizada do mundo quando carrega o bebê e sente aquele cheirinho único. O cheiro que a gente quer guardar num vidrinho, que faz parte dos nossos dias, dos nossos abraços e pausas que param o tempo em meio a tantas coisas que resolvemos.

Os abraços que de repente viram nossa rotina, nossa prisão e nossa fuga do mundo, para esse lugar tão nosso.

Amamentar sempre me trouxe uma sensação que não consigo descrever muito bem. Eu, que sou tão concreta, que trabalho em cartório, que também aproveito a amamentação para ver e-mails, conferir planilhas ou ler. `As vezes simplesmente me entrego a esse sentimento não nomeado, tão visceral… um misto de melancolia com acolhimento, um carinho que dói no peito, uma dor que afaga. A possibilidade de sentir a respiração e o pulsar dos corações enchendo a existência, ouvir o ritmo do corpo e o pedido de entrega…

Neste segundo puerpério, pude me entregar mais vezes a essa sensação única que só pode ser vivida por mim. Que não traz nenhum reconhecimento, nem aproveitamento do tempo. Mas a vivência impagável do Presente que passa a todo instante, sem voltar jamais.

(Veja também: Porque se conhecer no Puerpério?)

E na implacabilidade do tempo já se foram sete meses que ela nasceu.

Que nos equilibramos com as dores e amores de uma família agora formada por quatro. Uma irmã que era única e que se divide entre amar a bebê, que tanto pediu e querer que ela desapareça. Uma mãe que sofre em silêncio as dores da mais velha e ao mesmo tempo se irrita com sua presença exigente.

E, nesse permanente ciclo de dor e amor, a introdução alimentar vem sendo tranquila. Pois sim, ela curte comer e isso me dá certa liberdade, aos poucos.

Dia desses cheguei mais tarde do trabalho, com o esgotamento e carga emocional comum de quem se exigiu mais do que deveria. E sabe que é necessitada em casa. O marido tinha dado banho e janta para as duas, o que me deu um inesperado alívio. Como a bebê estava tranquila em seu colo e não me viu chegar, decidi jantar antes de amamentar ou tomar banho, a fome era grande. E durante esse tempo ela dormiu. Dormiu na cama e tudo, já pronta para a noite. O pai a fez dormir. E então eu me vi pela primeira vez  sem chão. Como se essa súbita liberdade tirasse todo o meu jeito de estar no mundo.

Parece que de repente a gente nem sabe mais se sentir aliviada..

Poder tomar banho tranquila.. como eu deveria estar realizada com essa dádiva inesperada. Como eu poderia. Mas meus peitos estão cheios, ela dormiu sem mamar. E ao mesmo tempo que sinto meus peitos cheios de leite, meus olhos se enchem de lágrimas. O leite sentido no peito, as lágrimas nos olhos, contidas da mesma forma, como se não se sentissem no direito de cair. Assim como um rio represado, que tanto segura, que quer simplesmente desaguar…

E com toda a contradição que caracteriza essa fase da vida. Então, durmo satisfeita por ter um tempo só pra mim. Mas esperando ansiosamente ser acordada para a próxima mamada.

Aline Cichetto – Mãe da Maria e da Luara

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