por Karla Fabiana E. Madruga

O que uma mãe e um pai que esperam o segundo filho escutam é que será mais fácil, porque já têm a experiência do primeiro. Mas será que é assim mesmo?

Se o primeiro filho chega trazendo a mensagem à família que o recebe “vocês não sabem de nada”, o segundo filho vem para dizer: “vocês não sabem de nada mesmo!”. Porque bebê nunca vem com manual. E mais: a intimidade e o amor materno e paterno continuam precisando ser construídos com o bebê que chega. As relações intrafamiliares e conjugais se desconstroem e precisam ser reconstruídas, mais uma vez, sob a égide da nova configuração. Surgem questões existenciais inéditas, dentre tantas e tantas mudanças…

Algumas coisas práticas em relação aos cuidados talvez até sejam mais fáceis, dependendo de quanto tempo faz da chegada do primeiro filho. Porém, toda a gama de experiências que vem junto com o segundo traz a força do nascimento de um mundo todinho novo. Já na gravidez é possível notar a singularidade dessa experiência. Os enjôos, os cansaços, a forma do bebê mexer na barriga, as preocupações… E o parto? Tudo dentro do esperado? Igualzinho ao plano de parto dessa vez, né? O puerpério? Tudo tranquilo agora? Não! “Vocês não sabem de nada mesmo”.

Sabemos de muita coisa

A verdade é que sabemos sim de muita coisa! Mas da NOSSA EXPERIÊNCIA: do que sentimos na maternidade e paternidade, da rede de apoio que precisamos costurar, das culpas que precisamos aliviar. Mas sobre aquele bebê que chega, sobre as necessidades dele e quanto isso irá nos impactar física e emocionalmente? Sobre isso realmente não sabemos nada mesmo! Quando tentamos prever, comparar, controlar… vem a realidade e nos chacoalha novamente! Soma-se a isso uma enxurrada de sentimentos na relação com o primeiro filho na chegada desse novo bebê: culpa, medo, raiva, felicidade, nostalgia, ciúmes, amor. Tudo elevado ao quadrado!

Uma fusão mãe-bebê que é cotidianamente quebrada nas solicitações maternas do primeiro filho. Se no primeiro puerpério vivemos o luto do que éramos antes da maternidade, agora temos que lidar com outros lutos. Um luto pela perda da conexão que se tinha com o primogênito, uma relação toda a ser redesenhada. O luto da maternidade ideal, que se já não tinha caído por terra, agora não demorará a desmoronar. Para as contas no fim do mês fecharem, a escola às vezes não é a que você sonhava. A casa é menor ou num lugar mais barato. Os produtos das compras do mês já não são os que você gostaria. O filho mais velho vê mais TV, fica mais tempo na escola ou com outras pessoas além de você do que você desejaria. O bebê recém-chegado acaba por ficar chorando mais tempo e o ambiente em torno dele fica mais agitado do que você imaginou. E mais uma pausa na vida nos atravessa, mais uma reflexão sobre os rumos profissionais, mais um ajuste de contas, mais um replanejamento de vida. Ufa!

Novos lutos

Que no meio disso tudo, possamos encarar com profundidade esses novos lutos, saindo renovadas. Que possamos rir mais dos nossos desajeitos e abandonar os julgamentos próprios. Que aceitemos a falta de controle. Que possamos acolher e ver beleza na imprevisibilidade da vida. Porque a vida é forte, e dura, e suave. E incrível exatamente por tudo isso. O puerpério só mostra toda a intangibilidade da vida como uma lente de aumento, que passa…

Que possamos então aproveitar esse momento ímpar para nos revisitar, olhar para nossa própria história. Encarar como uma oportunidade para pensar na relação com nossos próprios irmãos, por exemplo. Que estejamos atentas para o fato de que todos na família estão vivendo um puerpério, inclusive o primeiro filho.

Que possamos redimensionar as crises, encarando-as como o que elas realmente são: momentos de muita sensibilidade que têm sua dose de aspereza, mas também são altamente favoráveis ao amadurecimento, ao crescimento, a encontrar novos e melhores lugares de pertencimento no mundo. Que assim seja!

Karla Fabiana E. Madruga, ex-aluna do Curso de Psicologia do Puerpério do Instituto Aripe, Psicóloga, mãe do Bento e da Maya.

Imagem: Elliana Allon

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