Por Pollyana Mendonça

Aprendizes. É o que somos nessa vida. E é o que somos potencialmente com a chegada de nossos filhos. Entre tantos aprendizados, há um desafio que muitas das pessoas que tem mais de um filho se depara, mais cedo ou mais tarde: Como lidar com as diferenças entre nossos filhos? E ainda:

Como lidar com as diferenças de nossos sentimentos em relação aos nossos filhos?

Ah, que assunto delicado! Ser mãe, ou pai, é também revisitar a própria infância, sistematicamente.

É rever os princípios da educação que recebemos. É relembrar com afeto tudo o que nos parece acertado e que queremos muito perpetuar na educação de nossos filhos. E ainda olhar com afinco o que não compactuamos nos moldes que nos foram propostos, muitas vezes impostos, e separar cautelosamente o que não queremos repetir.

A atenção sobre os comportamentos cíclicos deve ser diária, pois a tendência é mesmo a de fazermos como nossos pais. Nesse sentido, a tomada de consciência sobre nossas ações junto aos nossos filhos é fundamental. Refletir sobre o que nos enraivece, sobre o que nos contenta, sobre os automatismos…

E nos esforçar para a construção de relações mais autônomas, mais lúcidas, minimizando ao máximo a repetição de padrões.

Tudo isso com uma criança já é bastante desafiador. Mas quando nasce o segundo ou terceiro filho, o desafio cresce exponencialmente. E muito além do que o trabalho físico cotidiano, de cuidar bem, é o trabalho psicológico cotidiano, de aceitar as diferenças e multiplicar o amor.

Minha mãe teve três filhas. Eu sou a mais velha delas. Tenho muitas lembranças na minha infância, e mesmo na adolescência, de conflitos com minha mãe, pela forma como as vezes ela lidava com as nossas diferenças, as rusgas entre suas filhas. Muitas vezes eu questionei, critiquei minha mãe por oferecer um trato diferenciado para suas filhas, demonstrando o que eu sentia, naquelas ocasiões, como preferência, como parcialidade. E me lembro também que naquele tempo minha mãe sempre dizia o seguinte: “minha filha querida, eu amo vocês três, cada uma de um jeito, você entenderá quando tiver seus filhos.”

Agora eu tenho duas filhas, com apenas dois anos de diferença entre elas. Elas recebem a mesma educação, dormem no mesmo quarto, comem a mesma comida e, por Deus, como são diferentes!

Bom, até aí tudo bem, ficamos perplexas com as diferenças e vamos aprendendo a conhecê-las e respeitá-las. O problema aparece quando nos damos conta, em nós, de sentimentos ambíguos. Quando percebemos as nossas reações diferenciadas diante do comportamento de cada uma de nossas crianças.

A gente se assusta. A gente se questiona se gosta mais de uma cria do que de outra. A gente sofre com isso. Sofremos porque não queremos nunca que nossas crianças tenham a percepção de amor de diferentes medidas.

Sofremos porque não queremos “preferir” ninguém!

E lá está a culpa, na espreita, doida pra entrar em cena novamente, porque essa dona culpa insiste em não querer nos deixar em paz. Mas, uma vez mais essa não deve ser uma questão que se esgota em culpa, e sim em reflexão, em auto-lapidação. Somos aprendizes! Com humildade, podemos observar que quase sempre o que nos incomoda no comportamento de um filho reflete algo em nós mesmos, que temos dificuldade de lidar. Ah, que assunto delicado…

Incomoda porque reverbera.

Incomoda porque provavelmente o comportamento dessa criança espelha aspectos indesejáveis de nós mesmos; ou de nossa criança interior que também pede colo; ou mesmo de nossos progenitores. Cabe a nós conclamar a paciência. Cabe a nós observar bem como é esse espinho que nos espeta, procurando tudo o que possamos ter em comum com ele.

Hoje percebo que o trato diferenciado que minha mãe direcionava a cada uma de suas filhas, não era porque amava algumas mais e outras menos. Era porque cada uma de nós sintonizava com aspectos da personalidade dela muito específicos. Alguns com mais luz, outros mais sombreados. Alguns mais leves, outros mais densos. Alguns mais alegres, outros mais dolorosos. E todos importantes de igual maneira para o nosso crescimento familiar.

Somente com o crescimento de minha segunda filha é que pude conhecer de fato as variações do amor, e aprender a harmonizar o carinho, de um jeito especial e único, para cada uma delas.

Se nos permitimos metamorfosear, com olhar atento no espelho dos olhos de nossos filhos, vamos nos descobrindo nas diferenças, sem culpa, sem preferências, e sem perder a ternura jamais!

Pollyana Mendonça – mãe da Aurora e da Violeta. Psicóloga pela Universidade Federal de Uberlândia. Mestre em Antropologia Social e Cultural pela Universidad de Barcelona. Indigenista com vasta experiência na Amazônia Ocidental. Permacultora e Contadora de histórias.

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