Nasci em um lar dançante, em meio à uma cultura dançante, e sou visceralmente vinculada à dança. Tenho acompanhado bem de perto o movimento de expansão do Método Dance Mãe e Bebê nos últimos meses. Assim como as reverberações dele nas mulheres que o dançam.

Vendo, escutando, sentindo e pensando, me veio o desejo de escrever sobre a dança, nesse contexto, sob à luz de minhas experiências psico-antropológicas. E ainda refletindo na reverberação que esse movimento propicia no futuro dos bebês dançantes, no nosso futuro.

Franz Boas foi o primeiro a se debruçar sobre a dança em uma perspectiva antropológica. Observando as reações que ela provoca na própria cultura. Em seu livro “Arte primitiva”, publicado em 1927, Boas categoriza a dança como uma Arte do Tempo, assim como a literatura e a música.

A partir de então, a reflexão antropológica sobre a dança, a performance, o movimento do corpo humano vem crescendo e se diversificando. São várias as possibilidade de enfoque, que podem perpassar a função que a dança exerce na estrutura social; a expressão artística como uma forma de comunicação; a manutenção ou a transformação das relações de poder.

A dança como elemento de transformação

A expressão rítmica através do movimento do corpo humano é uma manifestação tão antiga quanto diversa. Através das inúmeras possibilidades físicas e rituais, a dança vincula socialmente pessoas, gera solidariedade social.

Em minhas andanças etnográficas tive a oportunidade de compartilhar o tempo com dezenas de povos e comunidades tradicionais, do Brasil e do mundo. A dança coletiva sempre esteve presente em todas essas experiências, como celebração, como expressão, como regulador da vida.

Som e silêncio, movimento e pausa. Nessa conjunção, que espelha nada menos do que nossa própria respiração, os dançantes oferecem seu suor ao tempo. E recebem, dançando, a conexão profunda consigo, com sua própria cultura, com a espiritualidade regente.

A condição da dança é a presença. Um corpo expressivo, com forma, ritmo e movimento, que comunica. Feldenkrais, ao pensar nosso movimento, nos fala da consciência. Para ele a consciência é que organiza e confere sentido à trajetória Humana, propiciando a inovação amorosa, a criação em conexão com o Todo.

O Método Dance Mãe e Bebê propõe a presença, a consciência, a escuta de si e a livre expressão. Em uma perspectiva holística, o resultado é que dança irá expressar o arcabouço cultural da pessoa que dança, com suas fragilidades e potencialidades. Assim, a dança é afetada pela história de vida da dançante.

No entanto, sendo o propósito a imersão em si, a dançante será afetada por sua dança no mesmo momento em que a executa. Vivenciando a própria dança em uma sincronicidade cíclica de sentimento-ação. A dançante, com presença e com propósito, transforma sua dança e é transformada por ela.

Essa transformação acaba por afetar o grupo social da dançante e, nesse caso, muito especialmente, o bebê.

O Vínculo, a Humanidade e o Amor

Quando essa presença se torna vínculo e é exercitada com um bebê aconchegado no peito, unindo a pulsação dos corações em um só ritmo, em um só corpo dançante, a mãe propicia para esse bebê a transparência enquanto se revê. Enquanto sente, chora, ri e se melhora.

A mãe está sendo solidária consigo mesma, ao se “despir” dançando e se reconstruir em um movimento constante. E quando se expõe, está sendo solidária com a construção de um futuro de relações mais humanizadas, mais solidárias, mais amorosas.

A dança se reforça como escuta e expressão ao mesmo tempo, transformando, descontruindo e reconstruindo, uma nova mãe e um novo mundo, através da nova geração… esses bebês dançantes!

Pollyana Mendonça – mãe da Aurora e da Violeta. Psicóloga pela Universidade Federal de Uberlândia. Mestre em Antropologia Social e Cultural pela Universidad de Barcelona. Indigenista com vasta experiência na Amazônia Ocidental. Permacultora e Contadora de histórias.

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