por Pollyana Mendonça

É madrugada. A floresta continua desperta, mas agora com outros sons, bacuraus, mães-da-lua e uma infinidade de insetos e sapos aclamando a noite escura. Na aldeia, no coração da Amazônia, cada casa tem sua fogueirinha pra aquecer e abrandar a escuridão. Enquanto me embalo na rede ouço um bebê choramingar. Em seguida ouço a mãe cantando um acalanto e sinto o balançar de sua rede. O bebê não chora mais.

Com o raiar do dia a vida na aldeia volta a se movimentar. Quanto mais o sol esquenta maior é a algazarra das crianças. Soltas no terreiro, com bastante autonomia, elas inventam, correm, nadam, brincam juntas. Mal aprendem a andar e já tentam acompanhar as que conseguem correr. E as crianças que já começaram a trocar os dentes carregam as que precisam de colo, limpam suas secreções, afastam delas os perigos. Os maiores ditam as regras, os demais, em escadinha progressiva, interagem e se ajudam.

Do alto de suas casas suspensas, as mães com bebês de colo dão mamá e impõe ordem no terreiro caso algum limite seja extrapolado. Os demais jovens e adultos da aldeia seguem em suas funções, e nelas também são acompanhados por crianças.

É preciso uma aldeia pra se criar uma criança.

Por todos os lados do cotidiano na aldeia está o vínculo, a interdependência. Quando se diz que “é preciso uma aldeia pra se criar uma criança”, evoco a referência das crianças autônomas, felizes, seguras, que conheci nas aldeias. Entre os povos indígenas, o apego mãe-bebê e pai-bebê é só uma primeira parte de uma complexa rede de vínculos. Dela fazem parte a família nuclear, avó, avô, tias e tios, primas e primos, vizinhos, que quase sempre são parentes também.

Uma criança, quando precisa de ajuda, clama primeiro pelas outras crianças mais próximas. Com o aumento da gravidade do problema a ser resolvido entram as avós, os adultos que estiverem por perto e, em último apelo, a mãe ou outro cuidador principal, a figura mais intensa no apego. Nesse colo está a segurança final, o alivio da dependência acolhida.

Entre os povos indígenas, a Teoria do Apego também pode ser facilmente identificada no modo como as crianças convivem e aprendem com os adultos. As brincadeiras infantis imitam as lidas do cotidiano. Não há brinquedos pedagógicos industrializados, e sim uma pedagogia do brincar.

De madeira, cortiça e palha são feitos barcos, remos, arcos e flechas, cestos, esteiras e abanos. E com as miniaturas as crianças imitam a rotina dos pais. Nunca vi bonecas nessas aldeias. Esse instinto de cuidado, que as crianças desenvolvem desde muito cedo, é praticado com seres vivos, sejam os irmãos menores, sejam animaizinhos de estimação.  A vida pulsa, não há excessos, a aprendizagem flui como as águas.

Os adultos não se preocupam ensinando as crianças. Eles executam seus trabalhos acompanhados pelas crianças e vão contando-lhes histórias, dessa feita e de seus antepassados. As crianças escutam as histórias enquanto observam os adultos, e imitam os seus movimentos. Aprendem observando, tentando, errando e aperfeiçoando.

As crianças aprendem enquanto fortalecem os vínculos e a confiança.

Os povos indígenas tem, muito mais claro do que nós ocidentais, o entendimento sobre o tempo, a ancestralidade e a interdependência entre as gerações. De modo que o futuro de sua resistência sociocultural são as próprias crianças, bem vinculadas à todo o conhecimento ancestral.

Em um modo de vida no qual o equilíbrio reside na interdependência, as crianças serão sempre um patrimônio de toda a aldeia. E são esses vínculos, progressivos e sistêmicos, que garantirão a saúde das relações.

Quando começa a baixar a luz do dia, as mulheres voltam dos roçados, os homens chegam trazendo peixes e quem sabe alguma caça. Gritos e cantos de alegria são ouvidos aqui e acolá. O cheiro do alimento sendo preparado nos fogões à lenha invade o terreiro. As crianças tomam seu último banho, e se juntam às famílias em suas casas. O pai aquece o fogo, a mãe nina o bebê, a comida é compartilhada, e os anciões começam a contar histórias…

 

Pollyana Mendonça – mãe da Aurora e da Violeta. Psicóloga pela Universidade Federal de Uberlândia. Mestre em Antropologia Social e Cultural pela Universidad de Barcelona. Indigenista com vasta experiência na Amazônia Ocidental. Permacultora e Contadora de histórias.

4a Turma Psicologia do Puerpério com Alexandre Coimbra Amaral

6 Comentários
  1. Maria Lígia 2 meses atrás

    Todas as mães precisam saber disso. As mães de primeira e de segunda viagens são muito sozinhas, eu fui assim. Não sabia nada, foi difícil. Aldeia? só queria uma amiga, não tive, só eventuais, até hoje sinto que não fiz tudo, não fiz certo.

  2. Benedita 5 meses atrás

    Uuufa que maravilhamento em ler esse texto.. grata pela sensibilidade 🙌🏼🥰🦒🌄

  3. Shemariah Viana 1 ano atrás

    Que texto maravilhoso! Pude sentir os amoras, ouvir os ruídos da aldeia, das pessoas se movimentando, vivendo, sendo. Gratidão pela sensibilidade

    • tarsilakato 1 ano atrás

      Gratidão

  4. Juliana Coelho 2 anos atrás

    Que lindo, potente e pulsante, esse modo indígena de se vincular. Sigo sentindo que temos muito a aprender com os povos da floresta! Emocionada com esse texto.

    • Autor
      pollyana123 2 anos atrás

      Que bom que você gostou! Temos infinitos aprendizados..

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