por Alexandre Coimbra Amaral

A centralidade dos olhares do mundo para o bebê é dos fenômenos mais compreensíveis da experiência do puerpério.

Todas e todos se sentem absorvidos pela quantidade de vida, de futuro e de perspectivas que se condensa na forma de um recém-chegado ao mundo. Ele não é como nós, já cheios de cicatrizes e calos, na alma e na esperança dos nossos futuros e mundos. Por isso queremos bebês por perto – eles nos convidam a renascer, a frutificar em nós a candura e a ternura.

É imediata a voz calma, em tom baixo, o olhar conectado com o olhar do bebê. Tudo em nós se transforma em delicadeza. Ele nos devolve à nossa melhor porção, que tantos imaginávamos ter sido perdida há tempos.

Por isso este pequeno ser de parcos quilos nos alimenta tanto. E nosso olhar se enternece e quer eternizar o momento em que estamos com ele.

Ele é o que quereríamos ser, sempre; um pedaço de gente prestes a se vincular com o melhor do outro.

E assim encontrar quiçá esta pessoa em sua melhor porção. É esta a aposta de um bebê. É este o comportamento mais intrínseco da experiência humana: a necessidade atávica e a capacidade resiliente de nos vincularmos. Um bebê se vincula a alguém, a alguma coisa (um objeto de estimação, por exemplo), mostrando-nos que a vida é uma entidade coletiva. Que pede sempre para ser vivida fazendo laços com outros alguéns.

Esta atração que sentimos pelos bebês revela uma metáfora interessante sobre o estado de uma família ao recebê-los, cheios de vulnerabilidade e necessidade de cuidados. A família se desfaz e se refaz com um bebê. Como um jogo de xadrez desconfigurado, em que as peças precisam se movimentar para encontrar novamente um novo lugar para se sentirem parte de um todo.

Todas as pessoas de uma família com um bebê se sentem mobilizadas. Convidadas a viver uma experiência relacional bastante nova.

Nada fica no lugar com a chegada (ou com a partida) de uma pessoa numa família. Quanto mais se esta pessoa for um bebê, que se espera por nove meses (no caso de uma gestação biológica) ou por até anos a fio (no caso de um filho adotivo).

Nesta movimentação nova, verdadeira dança das cadeiras familiar, a instabilidade e a impermanência são um desafio para um grupo que estiver muito acostumado a papéis muito definidos ao longo do tempo.

A filha que se transforma em mãe agora quer (e merece) mais poder, tanto com seu filho quanto com seus pais.

A experiência perinatal (gravidez, parto e puerpério) pode ser vivida como um grande processo de empoderamento. Que faz com que esta mulher se conecte com o melhor de sua potência. E assim ela se sinta no direito e na liberdade de questionar a qualidade das relações familiares à sua volta.

Ela não quer, por exemplo, ser tratada como a “mãezinha”, um diminutivo que diminui (redundância assumida propositalmente aqui) a envergadura de uma mulher que está em pleno gerúndio de si mesma. Numa transformação da sua identidade que lhe ofertará a força para conviver com as angústias inevitáveis da maternidade.

E o pai?

O pai está ou lutando para permanecer com seus privilégios patriarcais. Ou em crise com as novas demandas que um bebê lhe entrega. Ele precisa viver o retorno a um trabalho, cinco dias depois do nascimento do filho. E pode se sentir transformado com a conexão com o bebê. À medida em que o puerpério avança, ele convive com a exaustão materna. Pode rivalizar com o bebê pela presença no coração e no tempo vivido da mulher. E por fim encontrar um lugar possível para existir nesta nova configuração familiar.

A avó (tanto materna quanto paterna) está vivendo o desejo de transmitir a cultura familiar de origem. Na forma dos cuidados com o bebê, e não entende geralmente as necessidades de uma filha que se transforma em mãe. Ela sente que precisa ajudar, geralmente de forma superprotetora, sem saber o momento ou a qualidade desta ajuda.

Tem os seus critérios sobre como deve ser a ajuda no puerpério, e isto a faz conflitar-se com uma filha que quer exercitar. Em maior ou menor grau, a sua maternagem e a sua capacidade de dar conta da cria, sem os manuais ofertados pela jovem avó. Uso aqui a palavra “jovem avó” de propósito, porque é desta juventude que se trata a conclusão destas linhas.

Somos tão jovens ao lado de um bebê! Somos tão inexperientes na lida com os novos papéis familiares!

Somos estagiários, inseguros e vulneráveis, em formas absolutamente inéditas de estarmos em família. Ninguém tem, antes de vivê-lo, a experiência em ser mãe ou pai de um recêm-nascido. Nem tampouco o de ser avó ou avô do primeiro, de dois, de netos de vários filhos diferentes. Se a mãe tiver mais de um filho, a sensação de receber o segundo ou o terceiro, bem como as perguntas existenciais que advirão destas chegadas, serão igualmente inéditas.

Num mundo à volta de um bebê, somos todos recém-nascidos. Chorando nossa insegurança diante do mundo novo de ter que estar pronto, sem nunca ter a capacidade para tanto, de cuidar de um bebê. Mas o cuidado de um bebê é também projetivo. Também estamos cuidando de nós, de nossa identidade, de nosso futuro, ao estarmos ao lado deles.

Somos recém-nascidos para uma vida nova, cheia de limites e possibilidades. Mas sempre instigante, já que através dos novos papéis podemos atualizar perguntas antigas e ainda não respondidas sobre nós.

Podemos inventar novos futuros e reconstruir passados perdidos em nossa história. O bebê à nossa volta é um imperativo a renascermo-nos, para nós mesmos. E se possível para a coerência entre o que somos, o que não conseguimos  e o que queremos ser.

FORMAÇÃO DANCE MÃE BEBÊ

1 Comentário
  1. Gabriela 5 meses atrás

    Sábias, sensíveis e completas essas palavras!!!!!@

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