Via-láctea

Lembro-me de quando a notícia de um câncer, o médico ergueu contraluz a ultrassonografia da mama saudável e disse. “Aqui está sua mama direita”. Então, ergueu contraluz a ultrassonografia da mama sacrificada e as calcificações pareciam uma faixa da Via-Láctea. Lembro-me de quando, naquele instante, pensei o seguinte. Biópsia; segunda opinião; campo cirúrgico; próteses; recuperação; com-ou-sem-mamilo; hidratação; exercício físico; uma viagem, talvez, a Via-Láctea. Uns bons minutos e eu boiando dentro daquela galáxia e ainda pude ouvir o doutor novinho dizer “in situ” e tudo pareceu finalmente poético porque o que era possivelmente terrível estava sequestrado por um ducto mamário. Tanta placidez porque, aos doze anos de idade, havia eu aprendido a crer em ocorrências de “expectativa favorável” e um (bom) tempo já o verbete “esperança” no glossário dos meus dias.
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Eu podia esperar o que me aconteceria.

Tem minha mãe na história. Tem a mãe que há 42 anos me despejou do próprio útero[1] na cidade de São Paulo e tem a “mãe-sentinela” que é aquela que me faz nascer todo tombo longo e ainda hoje. Chamo “tombo longo” isso de cair, não, isso de espatifar a cara contraluz, não, isso de espatifar a cara bem espatifada contra o vidro e morrer mortíssima ensanguentada e a lápide prontinha até descobrir que aquele desespero a granel era (um belo de um) susto. Um dia, uma noitinha, minha avó materna Maria de Lourdes morreu e minha mãe chorou, nossa, minha mãe chorou de soluçar. Eu não era assim tão-tão pequena e sabia já que minha avó viraria Via-Láctea porque os anos na carvoaria doméstica haviam espalhado grandes células nos pulmões dela e não sei bem como, mas sei que sempre soube da ampulheta. O que me afogou em pavor — claro, conto, sim — é que minha mãe chorou e em doze anos da minha vida era a primeira vez que eu havia escutado soluços produzidos por ela e soluços que me moeram as tripas apenas me entrando pelos ouvidos. Juro-jurado. Enquanto eu escutava, imaginei minha mãe no quarto de luzes apagadas, com os cotovelos apoiados no parapeito da janela. Até que a pude ouvir ao telefone com meu tio João do Galo — que do seu dia de estreia até seu dia último morou no soteropolitano bairro do Pau Miúdo: —“João, mãe morreu”.

Quando a mãe da gente pela primeira vez na vida chora porque a mãe dela morreu.

Quando o último grãozinho de areia escorrega para o compartimento debaixo, a esperança vem e dá das dela. Viajou para Salvador a minha mãe enlutada e, voltando para nossa casa em Osasco/meu/país — isso, um ou dois dias depois do sepultamento, contou mais relaxada e menos chorosa que havia vacas pastando no cemitério e também umas árvores que, para mim, sempre foram frondosas copas bamboleantes e de um verde radioativo que brilhava até no escuro. Depois, sentaram-se ela-os-irmãos-e-os-parentes-e-umas-amigas naquela padaria 24h do Largo do Tamarineiro — Caixa D’agua, IAPI, Pau Miúdo, Cidade Nova, por ali — isso, para beber na boca do litro, cantar berrado umas músicas tristes, catalogar memórias sortidas sobre vó e chorar mais uma caldeirada e meia. Quero dizer que ainda guardo, no conjunto das memórias que vez por outra me interrompem os hábitos, uns lampejos ainda luminosos daquela experiência. Quando eu sobrevivi ao que escutei. Minha mãe me ensinou.

E, escutando, eu aprendi a esperar o que me aconteceria.

Escute.

Quando um corpo grávido descarrega um corpo único para fora do útero, dizemos que o corpo único tem como destino a linguagem. Porque nascido de uma “mãe”, aquele “menino/azul” ou aquela “menina/cor-de-rosa” ou aquele “menine/nude?” será a nova pessoa herdeira de uma “família” “branca” “classe média”, “plano de saúde”, “oxigênio no mercado negro” e “stories no Insta”. Porque nascido de uma “mãe negligente”, aquele “moleque preto” será a nova coisa a restar de uma “negra”, “CEP de Zona de Vulnerabilidade Social”, agônico grau cilindro vazio e “stories de organizações humanitárias no Insta”.

Dá das suas a linguagem quando desenha diante de nós certa ordem de mundo.

“Certa ordem” que é nunca uma “ordem única” porque à linguagem ultrapassa a vida. A vida-vivida por corpos todos que são corpos únicos e que, forjados na coexistência original — um binômio é sempre o começo de tudo —, seguirão apoiando a própria existência em novos e novos vínculos. A comunidade, o par amoroso, a agremiação esportiva, a família estendida, a medicina de família, a escola, o teatro, as redes sociais digitais, o SUS (viva!). Tem a “pessoa-sentinela” que, de tão entremeada no comum, oferece sua escuta como meio para instituir uma ordem extraordinária, fresca, equânime. Uma ordem inaudita capaz de nos erguer a cada um nós todo tombo longo; isso de cair, não, isso de 588 mil mortes enquanto escrevo e tantas evitáveis, evitável, sim, porque nas urnas também desenhamos a nossa presença sobre a Terra, quer dizer, todo o nosso ocaso carimba passaporte na alfândega do ensurdecimento coletivo.

Por isso a escuta que, comprometida com isso de ouvir apenas e só, desvia do mau hábito que é aquilo de desejar pavimentar o conhecimento, constrangendo o Outro — por meio da força argumentativa — em direção àquilo que chamamos “minha ideia de consenso”. É mesmo bom o consenso porque já um bloco de pensamento bem prensado, permitindo-nos acomodá-lo na prateleira da minha cosmovisão e “natação à tarde”. É mesmo perverso o consenso compulsório porque se furta de — TCHIBUM — submergir nos complexos sistemas estelares de que são formadas quaisquer pessoas, deixando escapar a oportunidade de cocriar estratégias de ultrapassagem do espanto, do medo, do desamparo, do luto.

Escutando, ensino sobre estar aqui desde o radical da minha presença. Desde o radical da sua presença. Porque tudo é sobre mim e tudo é sobre nós. Tudo é sobre mirar em uma estrela para alcançar a Via-Láctea.

“E se alguém se dispusesse a bem escutá-la imediatamente agora? O que você contaria?”

Maria Ribeiro é cientista social (PUC-SP), mestre e doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP/Paris-Diderot). Professora no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades (FFLCH/USP) e na Coordenadoria de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão (COGEAE/PUC-SP). Redatora-geral do Simpósio Internacional de Assistência ao Parto (SIAPARTO) e integrante da Rede para Escutas Marginais (REM/Coletivo Margens Clínicas). Também uma grande admiradora do Instituto Aripe!

[1]E você pode usufruir da experiência no conforto do seu lar.

Queremos especialmente nesse mês de Setembro, convidá-los para esse evento gratuito que trás essa vontade de conversar, dialogar: “Diálogos com a Esperança” nos dias 21 a 24 de setembro de 2021.

Diante da pior crise humanitária dos últimos tempos, em um cenário de quase 600 mil mortos em decorrência direta da pandemia de coronavírus, e de outras tantas vidas perdidas em seu resultado indireto, a partir da violência e da impossibilidade de garantia de renda ou de qualquer auxílio por parte do governo, nossa responsabilidade humana nos convidou a conversar publicamente sobre a esperança.

Porque a esperança se faz entre nós, e você é parte disso!

Inscreva-se em https://aripe.com.br/dialogos-com-a-esperanca/

O Instituto Aripe é uma plataforma de cursos online de psicologia para quem busca aperfeiçoamento profissional ou aprofundamento nos assuntos que abordamos. Somos o lugar de encontro de pessoas que acreditam na busca do conhecimento como forma de crescimento pessoal e potencialização da prática profissional. Através de um olhar sistêmico abordamos temas relativos a terapia de casal, teoria do apego, puerpério e parentalidade em nossos cursos.